MARLENE FAGUNDES CARVALHO
GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
Você já imaginou como seria viver, desde muito cedo em sua vida, sem a capacidade de ver e ouvir?
Como ser gente sem as janelas que possibilitam nossa comunicação com o mundo? Sem poder ver o que são, e para que são, as coisas mais simples, tais como garfos, facas, copos ou quaisquer utensílios domésticos? Sem ver como são as pessoas, ou como são os sons das palavras que representam os objetos?
O que nos separaria dos animais, se não pudéssemos ter um modelo para seguir, modelo de andar, de falar, de se comportar, de se vestir? Como sobreviver a isso? Basta já termos vivido em outras vidas para estas lembranças estarem facilmente presentes?
Casos como o de crianças encontradas nas selvas, que viveram toda sua vida em meio a animais, mostraram à humanidade a enorme dificuldade da reintegração destas crianças ao mundo dos homens.
O caso de pessoas cegas e surdas não é impossível de acontecer, e pelo menos um destes é bastante conhecido pela humanidade toda, como um caso de luta contra os limites que o corpo impôs ao Espírito.
É o caso de Helen Keller, uma americana nascida em 1880. Cega, surda e muda desde os 19 meses de idade, ela viveu sua primeira infância quase como um animal, e apesar do amor de seus pais, sua comunicação com eles era incipiente. Uma professora, Anne Sullivan, passou a trabalhar com Helen quando esta tinha sete anos, e conseguiu conduzi-la, a partir do tato, ao mundo humano das significações. Quando adulta, ainda cega e surda, mas já inserida no sistema de comunicação humano, Helen escreveu vários livros e viajou por diversos países fazendo conferências (conferências sim, porque aprendeu a falar).
O texto abaixo foi extraído de um livro escrito por ela, nos descrevendo a importância do trabalho de sua professora.
"O dia mais importante de que me lembro e toda a minha vida foi aquele em que minha professora, Anne Mansfield Sullivan, chegou
Na manhã seguinte à sua chegada, minha professora levou-me ao quarto dela e deu-me uma boneca Depois que brinquei com ela um pouquinho, a Srta. Sullivan escreveu em minha mão (usando o alfabeto dos surdos-mudos), bem devagar, a palavra "b-o-n-e-c-a". Interessei-me incontinenti pela brincadeira do dedo e tentei imitá-la Eu não sabia que estava escrevendo uma palavra, nem mesmo que as palavras existiam; eu estava simplesmente movimentando meus dedos, macaqueando o que ela fizera. Nos dias que se seguiram aprendi a escrever dessa maneira, que eu mesma não compreendia, uma porção de palavras Mas só depois de minha professora ficar comigo diversas semanas compreendi que tudo tem um nome. Um dia, enquanto eu brincava com minha boneca nova, a Srta. Sullivan colocou também no meu colo minha grande boneca de trapos, escreveu "b-o-n-e-c-a" e tentou fazer-me compreender que "b-o-n-e-c-a" se aplicava a ambas. Naquele dia já tínhamos tido uma briga por causa das palavras "c-a-n-e-c-a" e "á-g-u-a" .A Srta. Sullivan tentara incutir-me a idéia de que "c-a-n-e-c-a" é caneca e "á-g-u-a" é água, mas eu persistia em confundir as duas. Desesperada, ela deixou o assunto por algum tempo, com a intenção de voltar a ele na primeira oportunidade. Ela trouxe-me o chapéu e conheci que ia sair e desfrutar do sol quente que havia lá fora. Esse pensamento, se é que uma sensação sem palavras pode ser chamada de pensamento, fez-me pular e saltar de prazer.
Descemos o caminho que leva à casa do poço, atraídas pela fragrância das madressilvas que o cobriam. Alguém estava tirando água e minha professora colocou-me a mão debaixo da torneira. Enquanto o fluxo frio jorrava sobre uma das mãos, ela escreveu na outra a palavra "água", primeiro devagar, depois mais depressa. Fiquei imóvel, com toda a atenção concentrada nos movimentos dos seus dedos. De repente, acudiu-me a consciência nebulosa de algo esquecido - a emoção de um pensamento que voltava; e, de certo modo, revelou-se-me o mistério da linguagem. Percebi que "á-g-u-a" significava o algo maravilhoso e frio que fluía sobre minha mão. A palavra viva despertou-me a alma, deu-lhe luz, esperança, alegria, liberou-a!
Saí da casa do poço ávida de aprender. Tudo tinha um nome, e cada nome dava origem a um novo pensamento
Eu possuía a gora a chave de toda a linguagem..." ¹
E as vezes nós, educadores, sentimos dificuldades de trabalhar com uma criança que tem um pouco mais de dificuldades de aprender o que queremos ensinar!!
O exemplo citado vem mostrar o que o OUTRO pode fazer. Não foi por acaso que o filme feito sobre a vida de Helen Keller recebeu o nome de: O milagre de Anne Sullivan!
Podemos imaginar que sem o trabalho da professora as dificuldades de Helen seriam bem maiores, e talvez ela nem conseguisse sair de seu próprio mundo.
Isto nos faz refletir mais fortemente sobre o papel do educador, em termos da contribuição que pode dar para o crescimento do educando, crescimento esse que supera a matéria, e que diz respeito ao Espírito imortal.
Que este exemplo nos venha sempre a lembrança quando tivermos alguma dificuldade diante de alguém que nos propomos a ensinar, e nos chame a responsabilidade do que pode ser feito na relação educador-educando.
Bibliografia:
¹ HELEN KELLER, The Story of My Life; extraído
de GALLOWAY,C., Psicologia da Aprendizagem e do Ensino, SP, Cultrix,
1981