Que Pacto? Por que Áureo?

ANTÔNIO CÉSAR PERRI DE CARVALHO
de São Paulo, SP

Estamos no ano que se comemora o cinqüentenário do "Pacto Áureo" 1. Inclusive , com tal estímulo foi programado o 1.° Congresso Espírita Brasileiro 2.

"Pacto Áureo" vem a ser um acordo considerado de alto nível, de ouro. Acordo significa conformidade de sentimentos, bom entendimento e é sinônimo de pacto, convenção, ajuste. Inclusive um contrato é um acordo. Na História há registros de milhares de acordos, de ordem política, comercial ou militar.

Em 1949 aconteceu um importante acordo para o movimento espírita. Embora federasse instituições - e até diretamente - a Federação Espírita Brasileira não apresentava, para aquele momento, características muito definidas na área de unificação, face a grande expansão do movimento espírita. A situação era muito diferente daquela da passagem do século XIX para o XX, quando reuniões e congressos também aconteceram, além do estímulo, inclusive com convocação pelo presidente Dr. Adolfo Bezerra de Menezes. Ou seja o movimento espírita extrapolava muito a abrangência e as situações da antiga capital do país.

Ao mesmo tempo, surgiam experiências esparsas e desorganizadas. No Estado de São Paulo surgiram várias instituições com a finalidade de federar e orientar centros e algumas não tinham relação com a FEB. Várias tiveram vida muito curta, mas nos anos 40 ainda persistiam quatro federativas paulistas. Em meio a este quadro, por iniciativa de Edgard Armond, como diretor da FEESP, as quatro entidades federativas convocaram um congresso estadual em 1947, onde foi fundada a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Esta efetivou o trabalho de unificação e de representação do Estado junto à FEB, mas ao mesmo tempo apoiou o 1.° Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, realizado na capital paulista em 1948.

Na seqüência, os idealistas e diretores da USE: Carlos Jordão da Silva e Vinícius, discutiram com homens de escol: Lins de Vasconcellos, Francisco Spinelli, General Michelena, Ary Casadio, Leopoldo Machado, idéias que acabaram redundando na assinatura do "Pacto Áureo", na FEB. Este foi assinado por representantes da FEB, USE-SP, Liga Espírita do Brasil, Comissão Executiva do 1.° Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, Federação Espírita Catarinense, Federação Espírita do Paraná e União Espírita Mineira. Pela quantidade e diversidade de idéias da época e pelos riscos que corria o movimento espírita brasileiro, pode-se entender a propriedade da designação de "acordo de ouro", pois lançaria as bases de um autêntico movimento de unificação dos centros espíritas.

A "caravana da fraternidade" ampliou o apoio ao Pacto e em 1950, constituía-se o atual Conselho Federativo Nacional.

Atualmente são evidentes os efeitos do processo de unificação das 27 entidades federativas estaduais e três instituições especializadas, em torno do CFN. Há ações em níveis nacional e regionais, publicações, campanhas e reflexos internacionais.

Todavia, como todo acordo, sempre há críticos, insatisfeitos e até refratários. Por exemplo, praticamente na mesma época nascia a ONU. Até hoje ela é questionada, olvidada, mas permanece como foro de decisões e de acerto entre nações.

O questionamento a acordos, leis e regras é próprio da natureza humana. Acontece em todas as áreas. No entanto, a época atual é muito típica de busca por amplos acordos - que são exemplos de unificação, de parceria entre países - haja vista o fortalecimento da União Européia e a formação do Mercosul.

Daí a oportunidade de se relembrar e viver as propostas do "Pacto Áureo", visando o fortalecimento do movimento espírita brasileiro, com base na união entre os espíritas e a unificação de sociedades. Torna-se oportuna a evocação de trecho de entrevista de Divaldo Pereira Franco, concedida durante o 10.° Congresso Estadual de Espiritismo, promovido pela USE-SP em 1997:

"A multiplicação de instituições feita pelo entusiasmo poderá trazer muitos danos ao movimento. Houve a fase dos lares, da sopa... A realidade pode mudar a natureza das instituições. Há muito Espiritismo à seu modo, sem nenhuma estrutura. Aí, muitos dirigentes escrevem a médiuns, quando deveriam recorrer ao movimento de unificação. Há excesso de personalismos. Ao invés de se criar instituições novas, por quê não se apoiar as já existentes? Um grande número dessas instituições marcham para sua própria autodissolução - É de lamentar quando surgem tarefas paralelas de unificação. O ideal é unir os espíritas pela unificação das sociedades. Às vezes são líderes carismáticos, exaltados que desagregam os desavisados. O ideal é nos identificarmos com as idéias e nos unirmos no ideal".

1 - Assinado na FEB, aos 5 de outubro de 1949.
2 - Patrocinado pela FEB, será realizado pela Federação Espírita do Estado de Goiás, de 1.° a 3/10/99

Leituras recomendadas:
1. Autores diversos - Ação Espírita - Visão de futuro. Anais do 10.° Congresso Estadual de Espiritismo. - São Paulo, Ed. USE, 1997
2. LEX, A. - 60 anos de Espiritismo no Estado de São Paulo. - São Paulo, Ed. FEESP, 1996.
3. LOBO, N. - Lins de Vasconcellos. O diplomata da unificação e o paladino do Estado leigo. - Curitiba, Federação Espírita do Paraná, 1997.
4. MONTEIRO, E. C. & D'OLIVO, N. - 50 anos de unificação. - São Paulo, Ed. USE, 1997.