Educação para a morte

NILZA TERESA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP

Se não fossemos espíritas ou da doutrina simpatizantes, poderia até parecer falta de sensibilidade, em uma coluna dedicada à educação, abordar um tema como este.

A doutrina Espírita, dentre suas numerosas contribuições, trouxe o esclarecimento desmistificador sobre este tema tão rejeitado e tão pouco discutido ao longo de nossas vidas. Kardec, conversando com os Espíritos desvelou ao mundo a realidade da vida além da morte. Tirou a vida espiritual da esfera do maravilhoso e do sobrenatural, deu-lhe a real dimensão que possui: o morto não esta morto, dormindo, esperando o juízo final, mas vivo em outra dimensão. Não o vazio, o nada, a solidão e a escuridão, mas novas possibilidades.

As obras subsidiárias da doutrina, por sua vez se encarregaram de trazer reflexões importantíssimas para àqueles que delas se ocuparam na busca da verdade e não de fantasias.

Neste século, coube à Dra. Kluber Ross , nos Estados Unidos, enfrentar o descrédito de seus colegas de medicina quando dedicou-se a entender o fenômeno do "morrer" em pacientes terminais. Submeteu-se ao ridículo quando orava junto a seus pacientes que lhe solicitavam. Como podia um profissional que é treinado para "salvar vidas" ocupar seu tempo com aqueles a quem a vida escapava sem que o profissional tivesse uma única chance de devolve-la?

Esta corajosa mulher médica, experenciando o morrer de seus pacientes foi capaz de descrever em seu livro "Sobre a morte e o morrer" os estágios pelos quais passavam seus clientes: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. Esses estágios nem sempre seguem uma seqüência podendo se sobrepor um ao outro.

A negação e isolamento ocorrem pela fato da pessoa não aceitar sua morte, tem esperança de poder reverter o processo.

A raiva aparece em seguida quando a pessoa começa a perguntar porque ela e não outro. Dra. Ross entendeu que neste estágio, o melhor que se pode fazer em benefício do cliente, é deixa-lo expressar sua raiva pois só a partir da elaboração da mesma poderá evoluir para a fase seguinte.

A barganha, como o próprio nome diz é a tentativa de "negociar com Deus ou com a fatalidade", hábito que nos valemos não apenas em situação da proximidade da morte.

A depressão advém quando a pessoa percebe que a morte é inevitável, os mecanismos de defesa tornam-se ineficazes; a resolução desta fase leva silenciosamente para o estágio final.

A aceitação caracteriza-se por uma paz relativa, busca-se a revisão da vida e procura-se contemplar o futuro. A pessoa não fala muito mas solicita a presença de familiares e amigos ao seu redor. Aquele que aceitou a morte deseja ser reconfortada através do contato com os que lhe são queridos.

Neste último estágio - a aceitação - descreve a Dra. Ross, a calma e serenidade se apossam de seus clientes terminais.

O cinema registrou com muita beleza estes estágios descritos pela Dra. Ross no filme "All the Jazz - O Show Não Pode Parar" com excepcional coreografia de Bob Fosse. Quando o personagem central do filme visualiza a proximidade de seu desenlace vê-se diante uma grande luz e caminha em direção à ela sem medos e receios.

Recentemente fomos contemplados pela magnífica obra "A última grande lição: o sentido da vida" de autoria de Mitch Albon. O livro relata os quatorze encontros do autor com um de seus professores da universidade com quem não mantinha contato há vinte anos. Morrie Schawartz, o professor era portador de uma doença terminal, vale-se destes encontros para tratar com seu ex-aluno "temas fundamentais para a felicidade e realização humana."

Esses quatorze encontros são relatados no livro e versam sobre: o mundo, autocomiseração, remorso, morte, família, emoções, envelhecer, dinheiro, permanência do amor, casamento, cultura, perdão, conceito de dia perfeito, a despedida.

Esse homem maravilhoso fez da experiência da aceitação da morte eminente, oportunidade de nos legar seus conhecimentos e reflexões uma vez que concordou em gravar os encontros para divulgação posterior, mesmo desvelando seu corromper físico, sentia que ainda era capaz de dar sua última grande lição.

Ao tratar deste tema não podemos omitir a obra de J. Herculano Pires "Educação para a morte" na qual analisa sobre a ótica histórica e doutrinária o fenômeno da morte.

São dele estas considerações:

"Há dois mil anos Jesus de Nazaré, carpinteiro filho de carpinteiro, ensinou ao mundo os princípios da Educação para a Morte e enriqueceu seus ensinamentos com seu exemplo pessoal. Exemplificou a própria imortalidade ressuscitando em seu corpo espiritual..."

"O ato educativo no processo da educação para a morte, revela-se ainda mais profundo e significativo do que na educação comum. Começa pelo chamado de uma consciência esclarecida e madura às consciências imaturas para se elevarem acima dos conceitos errôneos a que se apegam. Temos que revelar e justificar para essas consciências, com dados científicos atuais, o mecanismo individual e coletivo da morte. Urge convencer o homem que a morte não é um mal, mas um bem da Natureza e uma necessidade para o homem. Temos que mostrar que o morto não é um cadáver, mas um ser imortal que, ao passar pela vida e pela morte enriqueceu-se de novas experiências, adquiriu mais saber desenvolveu suas faculdades ou potencialidades divinas."

Concluímos com as palavras de dois grandes sábios:

Buda: "a morte nos visita 75 vezes em cada uma das nossas respirações."

Mahatma Gandhi: "Toda a noite , quando vou dormir, morro. E, na manhã seguinte, quando acordo, renasço."