"Por que é preciso dizer não"

MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP

"Ícaro é um garoto que, na adolescência, recebe do pai, Dédalo, um par de asas feitas de penas de aves coladas com cera. Com elas, Ícaro poderia voar, desde que observasse determinadas regras, como não se aproximar demais do sol. Pois foi exatamente isso que aconteceu. Ícaro voou tão alto que o calor solar derreteu a cera de suas asas e ele caiu e morreu" . Bologna, Revista Veja

Temos assistido notícias sobre violência ocorridas em escolas e em grupos de crianças e jovens, com cada vez mais freqüência. Quase todo dia alguma nova notícia deste porte surge, e temos visto os pais destes jovens e crianças se perguntarem, depois do choque inicial: onde foi que eu errei?

Essa situação tem provocado a reflexão de pais e educadores de todo o mundo, e a própria mídia tem apresentado algumas respostas.

A Revista VEJA, de 16 de junho passado, teve como reportagem de capa: "NÃO, NÃO E NÃO!!! Os especialistas dizem que os pais precisam impor limites para educar os filhos". A reportagem mostra que "a liberdade excessiva, ensina agora um número crescente de psicólogos e pedagogos, produz adultos sem noção de limites e responsabilidades."

Falando sobre a importância dos limites na educação dos filhos, a revista reproduz uma história, contada pelo psicoterapeuta José Ernesto Bologna, sobre Ícaro, um mito grego de mais de 3000 anos, que transcrevo a seguir:

"Ícaro é um garoto que, na adolescência, recebe do pai, Dédalo, um par de asas feitas de penas de aves coladas com cera. Com elas, Ícaro poderia voar, desde que observasse determinadas regras, como não se aproximar demais do sol. Pois foi exatamente isso que aconteceu. Ícaro voou tão alto que o calor solar derreteu a cera de suas asas e ele caiu e morreu. 'No mito há uma lição simples: os pais devem estimular seus filhos a fazer coisas novas, como voar no caso de Ícaro, mas antes é necessário ter certeza de que o filho é capaz de respeitar limites', observa Bologna. 'É preciso ser sempre muito claro e até intransigente quanto às regras a ser seguidas' ".

Curioso notar que a forma de se ver a educação dos filhos foi mudando na nossa história. Antes dos anos 60 a criança devia prestar respeito e obediência aos pais, senhores absolutos da casa. Não podia sequer falar às refeições. Era vítima constante de castigos e até maltratos, pois a intenção dos adultos era de "civilizar" a criança, tida como selvagem. Eram raras as manifestações de afeto e carinho. Estas crianças tornavam-se adultos cheio de traumas e reprimidos. Depois dos anos 60, 70, isso mudou. De um extremo a humanidade pulou para outro, e o que se queria, então, era demonstrar o amor às crianças, sem limites. Pessoas que tiveram uma infância marcada pela opressão, queriam dar outro tipo de vida a seus filhos, na qual a espontaneidade e liberdade seriam privilegiadas. Daí as conseqüências nefastas de adultos sem limites nem responsabilidades.

Ocorre que ainda estamos nessa busca. Nesse momento, temos a vantagem de olhar para trás, e ver, historicamente, os resultados das diferentes experiências.

Temos, também, a vantagem de saber que o Espírito é imortal, e que embora traga consigo uma bagagem enorme de outras experiências, a infância é o momento em que está mais aberto e sugestionável à educação recebida pelos pais.

Através do Espiritismo, muitas lições chegam até nós, propiciando reflexões de nossa parte sobre esta questão.

Vemos, por exemplo, em psicografia assinada por Comenius - filósofo que viveu no século XVII - no apêndice do livro A Educação segundo o Espiritismo, de Dora Incontri, editada pela FEESP, a seguinte colocação: "Educar com liberdade não é abandonar o ser à própria sorte, esquecendo-se de suas necessidades básicas de alimento físico e espiritual. Educar com liberdade não é nos desleixarmos com sua postura mental, indiferentes ao seu roteiro evolutivo. O amor, que é a condição necessária da liberdade, não permite tal disparate." Tais ensinamentos visam a nos dar consciência do nosso papel, e nos dar dicas de como fazê-lo.

Mas a base mesmo da conduta a ser seguida podemos encontrar nas Obras Básicas. Kardec nos faz ver a importância das experiências que vivemos e possibilita-nos a reflexão sobre diferentes questões a que estamos sujeitos cotidianamente. Não se trata de receitas, mas de elementos que vêm contribuir para que possamos construir melhor nossa relação com os outros e com o mundo.

Quando Kardec nos diz, no Livro dos Espíritos, questão nº 385, sobre a infância, que a missão dos pais é reformar o caráter das crianças e reprimir suas más tendências, temos aí um bom ponto de partida, que nos leva a pensar sobre os limites a serem impostos a nossos filhos.

Quem é pai, mãe, ou quem lida mais de perto com essa tarefa de educação, sabe o quanto isto é difícil, e o quanto isso exige de nós mesmos uma mudança de atitude, de postura.

Mas isso não deve nos desanimar, mas, ao contrário, deve servir como um desafio, pois sabemos que a cada conquista conseguimos não só que nosso filho voe, sem cair como Ícaro, como também conseguimos, nós próprios, alçar novos vôos.