A mediunidade e seus percalços

NATALINO D'OLIVO
de São Paulo, SP

O dom da mediunidade

A mediunidade é a faculdade que permite o intercâmbio entre os seres de dois mundos: espiritual e material.

O dom da mediunidade é nato e não constitui privilégio de nenhuma criatura, de nenhum grupo, nenhuma classe, mas é dom comum a todos, indistintamente, por ser uma faculdade intrínseca à própria natureza espiritual, embora haja muitos que a tenham bem desenvolvida como mandato, na condição de prova ou missão.

A mediunidade, como um fato natural e comum, tem se manifestado em todas as épocas de nossa história, oculta e ostensivamente, sob várias modalidades. Tem sido ela, por ignorância, interpretada, ora como superstição, ora como manifestação do sobrenatural, qual seja o milagre. Ela é fundamento de todas as religiões, por constituir um anseio da criatura para entrar em relação com os de além-túmulo ou com o próprio Deus.

Todos os grandes espíritos que estiveram à frente de um movimento religioso ou de um movimento de reforma social, tiveram ajuda dos espíritos pela mediunidade. O que são as profecias senão fenômeno mediúnico?

A proibição de Moisés

Por que teria Moisés proibido a comunicação com os espíritos? Isto prova que o fenômeno mediúnico era muito comum, e que a mediunidade entre o povo de Israel estava sendo usada. Mas que, devido a falta de controle e de esclarecimento das criaturas, tornou-se prejudicial, naquela época, por constituir valoroso instrumento para as forças do mal, como acontece nos dias de hoje entre os grupos não esclarecidos. Foi por isto que ele proibiu. O fato de ele proibir não quer dizer que não existia comunicação; porque as comunicações sempre se deram, apesar de sua proibição, uma vez que a comunicação ou a proibição não depende de uma ordem de fulano ou de sicrano, mas única e exclusivamente do desenvolvimento da faculdade e da vontade dos espíritos. Ademais, uma coisa que é proibida é porque existe. Não se proíbe uma coisa que não existe. Se Moisés proibiu é porque existia. A comunicação é real. O fato houve. A proibição de Moisés, que se encontra no Deuteronômio, 18:11, da qual muitos se servem para combater o Espiritismo, muito ao contrário de negar a comunicação, afirma-a. E assim sendo por que insinuar a mentira nas criaturas de que não existe espírito e comunicação? Por quê? Porque são cegos, ou pelo menos se fazem de cegos por conveniência. Será que não vêem que o próprio Moisés falou com Jesus no monte Tabor?

A mediunidade é um fato real que pode ser comprovado por qualquer pessoa desde que se entregue ao seu estudo e procure exercitá-la. Ela tem sua base na experiência e se encontra claramente ensinada em todas as páginas da Bíblia e do Novo Testamento, tendo o próprio Jesus e seus discípulos praticado.

Os fatos mediúnicos que a História registra constituem prova de que a relação com o mundo espiritual não é privilégio de uma classe de homens que, sem terem, de espécie alguma, faculdade mediúnica desenvolvida, se arrogam o direito de serem os únicos intermediários entre Deus e os homens, entre o mundo espiritual e o mundo material, como se esta relação dependesse de alguma investidura humana. Quem poderá negar que na Idade Média houve uma verdadeira explosão de mediunidade? Quase todos os mártires foram médiuns. Quem ousa negar as vozes de Joana D'Arc?

A responsabilidade do médium

O mundo espiritual é povoado por espíritos de diferentes graus de evolução, Allan Kardec estabeleceu três ordens quais sejam: Espíritos puros, bons e imperfeitos. E dentro destas ordens mostrou, pelas características dos espíritos, dez classes. Analisou as qualidades e os defeitos dos espíritos comunicantes. Ora, a pessoa que desenvolve suas faculdades mediúnicas se abre para esse mundo, podendo entrar em relação tanto com os bons como com os maus, tanto com os sábios como com os ignorantes. Isto depende do grau de aperfeiçoamento do médium. Se for espiritualizado entrará em contato com os espíritos bons, ao contrário entrará em relação com os espíritos imperfeitos, estando sujeito a inúmeras mistificações, ao capricho dos espíritos malévolos. Daí a responsabilidade do médium, e principalmente do missionário, ante esse mundo de forças heterogêneas; se não empregar o esforço próprio e não procurar estar sempre em contato com as forças do bem, correrá o risco de ser desviado de sua missão, não podendo prestar os benefícios à humanidade, como também prejudicará a si mesmo, caindo sob o domínio das forças do mal. Foi por isto que João - o Evangelista - disse: "Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus" (I João, 4:1).

Conclusão

Muitos médiuns que estão exercendo o seu trabalho como intermediário não conhecem os percalços da mediunidade; desconhecem este ensinamento de João, a codificação de Allan Kardec e os conselhos dos Espíritos Superiores, alertando sob o assunto. É falta deste conhecimento o motivo pelo qual, de vez em quando vemos quadros estarrecedores de desequilíbrio mediúnico. O Espiritismo tem a missão de educar a mediunidade para um trabalho proveitoso com Jesus.