NILZA TERESA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP
No mês de Maio p. p., tivemos oportunidade de discutir a temática morte sob o enfoque daquele que a experencia, neste artigo pretendemos fazer algumas considerações á respeito daqueles que experenciam a volta de um ente querido á vida espiritual.
Embora sendo a finitude da vida biológica uma certeza inegável, quase sempre quando esta finitude ocorre com um ente querido, isto gera um sofrimento que muitos levam tempo e gastam muita energia para processar esta "perda", aqui é colocada entre parênteses, uma vez que o primeiro conceito a ser trabalhado quando se quer ajudar alguém a elaborar este processo, é justamente afastar a idéia de "perda", substituindo-a para de afastamento, mudança; como ensina Emmanuel 1 "os chamados mortos são apenas ausentes".
Worden 2 estudou as fases de adaptação das pessoas que passaram pela experiência da "perda de entes queridos", descrevendo-a em 4 períodos que apresentaremos á seguir.
A primeira fase, que o autor denominou de lamentação, consiste em aceitar intelectual e emocionalmente a realidade. A pessoa então flutua entre a crença e a descrença de que o evento morte realmente aconteceu. Não é raro ouvirmos pessoas dizerem: "parece que estou sonhando, parece que nada disso aconteceu".
Vivenciar e ultrapassar a fase da dor do luto, para Wonden, constitui a segunda fase. Nesta fase a pessoa manifesta sua dor de muitas maneiras, tais como, dor física, dor emocional e dor comportamental. Negar a existência destas dores pode gerar sintomas como depressão e/ou comportamentos não saudáveis. A única maneira de ultrapassar esta fase é através do sentimento e reconhecimento da dor do luto.
A terceira fase compreende o ajustamento ao meio ambiente que foi compartilhado com o ente querido que morreu. Para que este ajustamento ocorra a pessoa necessita desenvolver novas habilidades, assumir novos papéis e mudar sua impressão acerca do mundo, bem como encontrar um novo significado e direção na própria vida.
Para o citado autor, a quarta e última fase caracteriza-se pelo "afastamento emocional do objeto da perda e a continuação da vida." Deve-se buscar ativamente a formação de novos relacionamentos. Wonden ainda coloca que a resolução do processo de luto vem quando a pessoa que vivenciou a "perda" se volta para o futuro, tem prazer na vida e consegue se adaptar a novos papeis . Alerta aqueles que pretendem ajudar as pessoas que vivenciaram a partida de entes queridos que este processo de adaptação leva tempo e demanda trabalho. De todas as colocações deste autor, parece-nos que á ótica da Doutrina Espírita merece reparo a questão do afastamento emocional do objeto de perda, uma vez que entende-se que este afastamento não se faz necessário desde que não se constitua em cobrança de presença concreta e permanente deste Espírito no cotidiano da vida material daquele que ainda continua a vivê-la. Que a passagem de um ente querido para a vida espiritual gera sentimento de saudades e exige adaptações para o prosseguimento da vida dos que aqui, ficam é verdade incontestável em nosso presente estágio evolutivo. Entretanto, o que difere para aqueles que têm compreensão da Doutrina Espírita é justamente o entendimento de que mesmo vivendo no plano espiritual, as mensagens, os sentimentos, as atitudes daqueles que aqui ficaram alcançam e influenciam aqueles que tentam o ajustamento a esta nova dimensão da vida.
A questão 936 de "O Livro dos Espíritos" nos informa que "O Espírito é sensível à lembrança e às lamentações daqueles que amou, mas uma dor incessante e desarrazoada o afeta penosamente, porque ele vê neste excesso uma falta de fé no futuro e de confiança em Deus, e por conseguinte, um obstáculo ao progresso e talvez ao próprio reencontro com os que deixou."
Aqui se coloca a questão das pessoas que alimentam mono-idéias, ou seja a fixação naquilo que chamam de perda, não abrindo a si mesma a possibilidade de novos relacionamentos, de novos comportamentos, de novos objetivos de vida, mantendo atitude de como nos ensina a fábula "chorar pelo leite derramado."
Em relação àquele que fixou residência no plano espiritual esta atitude é nefasta, e o que é mais incoerente é a afirmativa de que assim agem "por amor", como se amar fosse gerar sofrimento naquele que se ama. Esta compreensão talvez seja a grande motivadora da busca de novos comportamentos e atitudes frente a ida do ente querido para a vida espiritual; se quero vê-lo feliz, ajustado, em processo evolutivo vou fazer a minha parte para este ajustamento.
Vejamos com Marcos 3, que desencarnou aos 12 anos em companhia de seu irmão João Batista de 11 anos e de sua irmã Sheila de 7 anos, ensina à mãe a ajudá-los no ajustamento à vida espiritual:
"A senhora, sempre carinhosa e sempre imensamente boa para nós não choraria mais com tanta angústia se visse a nossa querida Sheila cair de aflição, querendo ir ao seu encontro sem poder...
Tudo o que foi nosso - de nós três - dê a outras crianças em nosso nome
Ficará para nós o coração inteirinho, porque a senhora, papai, João Batista, Sheila e eu não nos separamos.
Peça energias para nós nas preces do seu carinho de sempre.
Mamãe, as lágrimas são forças de Deus em nossa vida, e por isso, nenhum de nós está livre de chorar, mas as nossa lágrimas devem ser orações - orações de gratidão e amor, paz e fé."
A Doutrina nos ensina que quem ama segue este conselho e busca se educar e autodisciplinar.
BIBLIOGRAFIA
1) EMMANUEL; Religião dos Espíritos,
Ante os que partiram, p.154
2) WONDEN, J.W.; Grief counseling and griefterapy
3) MARCOS, Crianças do além, pp. 51
e 61.