PAULO HENRIQUE D. VIEIRA
de Uberlândia, MG
Para Schopenhauer a tragédia da vida surge da natureza do homem que o impele constantemente à procura da satisfação de metas sucessivas que nunca o darão uma satisfação permanente. Assim a vontade em satisfazer seus desejos conduzem o homem inevitavelmente para a dor e o sofrimento e a vida se resumiria num ciclo infinito de nascimento, crescimento, envelhecimento e morte e a única solução para a problemática da vida seria uma atitude de resignação na qual a razão governaria a vontade.
Schopenhauer tornou-se conhecido no mundo inteiro com a publicação de obras como Die Welt als Wille und Vorstellung (1819; O mundo como vontade e representação), Parerga und Paralipomena (1851; Bagatelas e digressões), e no final da vida o filósofo demonstrou uma certa inclinação para as ciências ocultas quando escreveu "Experiência Concernente à Visão de Fantasmas e Assuntos Afins", onde procurou identificar as causas reais e transcendentes da existência humana.
Artur Schopenhauer morreu em Frankfurt em 21 de setembro de 1860, portanto três anos depois que veio à lume O Livro dos Espíritos e com certeza se tivesse ficado mais tempo entre as pessoas daquela época e pudesse ter tomado contato com o tratado filosófico do Espiritismo, encontraria várias respostas as suas cogitações e expectativas.
Mas peguemos a tese central da filosofia pessimista de Schopenhauer e façamos algumas considerações.
O filósofo afirmou que a vontade é a causa primária de todo mal e de toda dor, que esta é irracional e que o desejo do indivíduo em satisfazer suas aspirações o levariam inevitavelmente para o sofrimento.
Concordamos em parte com o pensamento do filósofo, pois vemos pessoas que para satisfazerem seus desejos inferiores muitas vezes matam, roubam, adulteram, entre outras coisas.
Sim, podemos afirmar que a vontade é a causa primária de nossos desejos e o móvel de nossas ações; mas daí partir para o pressuposto que esta seja a causa de nossos males vai uma distância grande.
Como Schopenhauer não teve contato com o Espiritismo, sua filosofia esbarrou onde tantas outras também não lograram mais amplas reflexões sobre o problema concernente ao ser, ao destino e a dor.
Os espíritos deixam claro na pergunta nº 115 do Livro dos Espíritos que Deus nos criou simples e ignorantes, e mais adiante no item 872 "Resumo Teórico do Móvel das Ações Humanas"; Kardec inicia seu ensaio tecendo os seguintes comentários: "A questão do livre arbítrio pode resumir-se assim: o homem não é fatalmente conduzido ao mal; (...) Ele pode, como prova e expiação, escolher uma existência em que sentirá arrastado para o crime, seja pelo meio em que estiver situado, seja pelas circunstâncias supervenientes. Mas será sempre livre de agir como quiser. Assim, o livre-arbítrio existe, no estado de Espírito, com a escolha da existência e das provas; e, no estado corpóreo, com a faculdade de ceder ou resistir aos arrastamentos a que voluntariamente estamos submetidos. Cabe à educação combater as más tendências, e ela o fará de maneira eficiente quando se basear no estudo aprofundado da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que regem essa natureza moral, chegar-se-á a modificá-la, como se modificam a inteligência pela instrução e as condições físicas pela higiene."
Mais adiante o codificador explicita: "Sem o livre arbítrio, o homem não tem culpa no mal, nem mérito no bem; e isso é de tal modo reconhecido que no mundo se proporciona sempre a censura ou o elogio à intenção, o que quer dizer à vontade; ora, quem diz vontade diz liberdade. (...)''
Como vemos não é a vontade a causa dos males humanos, pois o homem é dotado do livre arbítrio, sem o qual não passaria de uma máquina destituída de discernimento, sem qualquer mérito na prática do bem e qualquer culpa no mal.
Schopenhauer, Voltaire, Nietzsche, Kant, Hegel e tantos outros grandes pensadores apesar de terem contribuído enormemente no que tange à liberdade de expressão, aos direitos humanos, aos ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade, elaboraram filosofias limitadas, onde por não disporem de mais amplas certezas sobre a imortalidade da alma e não cogitarem sobre a reencarnação, não puderam penetrar mais profundamente nos mistérios da natureza humana e nos complexos problemas da vida que só o Espiritismo pode responder.
É por isso que a filosofia espírita é a única que pode elucidar à humanidade a problemática do sofrimento e esclarecê-la sobre o caminho da evolução, onde outras filosofias são impotentes por se limitarem a analisar o homem antropológico, enquanto a doutrina espírita além de analisar este, também trata dos aspectos do ser eterno, da individualidade imperecível.
Concluímos assim, à luz da doutrina espírita; que a vontade não é a causadora dos males humanos, que esta sim precisa é ser disciplinada, educada, e que a moral evangélica, os preceitos exemplificados por Jesus, são o mais roteiro seguro para educarmos nossos desejos e emoções, lembrando-nos da regra áurea ditada por Ele:
"(...) tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles(...)"
Bibliografia:
Artur Schopenhauer - Nova Enciclopédia
Barsa © 1998Schopenhauer, Artur - Microsoft® Encarta® 96 Encyclopedia
Bernardo Loureiro, Carlos As Experiências de
Schopenhauer, Jornal Espírita - Novembro de 1998
Referências:
1 Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos, perg. 115 - Livro
II, cap. I - Progressão dos Espíritos
2 Mateus, VII: 12
E-mail do autor: paulo_henr@loja.net