MARLENE FAGUNDES CARVALHO
GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
Como o ser humano desenvolve-se? O que faz um bebê, no início tão inapto, transformar-se num adulto capaz e responsável? Esta questão preocupa a humanidade há muito tempo. Seria o desenvolvimento algo determinado, já preestabelecido geneticamente? Que fatores, internos e/ou externos poderiam propiciar um maior desenvolvimento? A aprendizagem teria algum papel neste processo? Será que as pessoas se desenvolvem porque aprendem ou aprendem porque já se desenvolveram o suficiente para tal? Qual a relação entre desenvolvimento e aprendizado?
Como outros estudiosos, Rousseau também pensava sobre esta questão e levantou teorias sobre o assunto. Teorias estas que, de certa forma, influenciaram grandes pensadores na área de Educação. Com a sua idéia de que o homem é essencialmente bom, que traz em si o gérmen de tudo que possa fazer ou ser, acabou privilegiando o primeiro aspecto: o desenvolvimento. Para ele este parece ser o mais importante. Basta lembrarmo-nos do seu livro "O Emílio", marco importantíssimo na pedagogia. Ali a aprendizagem parece não ter papel algum, já que o preceptor que acompanha a criança ali descrita apenas cuida para que o seu desenvolvimento vá se aflorando, sem a interferência negativa da sociedade. Rousseau representa uma vertente de pensamento, que podemos chamar de inatismo: a pessoa já nasce (é criada) com as características que a fazem única. Durante sua vida o aprendizado não trará mudanças significativas, apenas aperfeiçoará o que já traz consigo.
Esta idéia foi fundamental para a época que surgiu pois quebrou preconceitos quanto à infância, trazendo à luz a idéia de que a criança não é apenas um adulto que está por vir, um homem em miniatura sem capacidade, mas alguém ativo e com potencial a ser trabalhado. Tal noção predominou por muito tempo e ainda hoje tem seguidores, embora muitos nem se dêem conta disso, como por exemplo aqueles que acreditam piamente que "pau que nasce torto morre torto" .
Cerca de 150 anos depois de Rousseau, surgiram teorias mostrando que o ambiente, como algo externo à criança, tem papel fundamental em sua educação. São aqueles que podemos chamar de ambientalistas. Para estes, a criança nasce como um papel em branco, e através de sua vivência e experiência no ambiente é que vão formando suas características. A aprendizagem passa a ter, então, papel fundamental, pois a criança desenvolve-se na medida em que aprende. Skinner foi o maior representante desta vertente, com sua idéia de apresentação de estímulos, gerando reforços positivos (recompensa) ou negativos (punição), criou uma teoria de controle e manipulação de comportamento, sendo muito conhecida - e usada também - até hoje (quem nunca disse a seu filho que se não comer tudo não vai ganhar a sobremesa??). Esta vertente esteve presente durante muito tempo, influenciando fortemente o sistema de ensino nas 3 últimas décadas, quando então valorizava-se extremamente os planejamentos, a técnica para ensinar, etc., pois a pessoa se desenvolveria em função daquilo que aprendesse. Ainda hoje esta teoria está presente, embora tenha perdido sua força.
Piaget, outro marco na educação, embora sua preocupação fosse a questão psicológica, introduziu elementos importantes nesta visão, já buscando uma alternativa entre os dois extremos. Ele salientava que tanto o organismo quanto o meio tem funções importantes para o desenvolvimento da pessoa. Poderíamos dizer que ele se enquadra na vertente conhecida como interacionista, aquela que defende a idéia de que a interação entre o indivíduo e o meio (físico, social, histórico e cultural) é que constrói as características do sujeito, aspectos estes fundamentais para a compreensão do desenvolvimento humano. Ainda assim, talvez pelo fato de sua formação ser em biologia, a questão da maturação e do desenvolvimento tem peso maior em seu trabalho. Para ele, segundo suas próprias palavras, "a aprendizagem está subordinada ao desenvolvimento" ¹.
A obra de Vygotsky vem trazer nova luz a esta questão. Alguns pesquisadores o chamam de sociointeracionista, pois ele dá ênfase à interação dos dois fatores (indivíduo e meio) na construção do indivíduo, mas mais que isso, salienta a importância do outro - e, portanto, do aprendizado - neste processo de apropriação dos conhecimentos e do mundo. Por que este outro é tão importante? Será que o ser humano se desenvolveria se estivesse sozinho, longe de qualquer vestígio da cultura humana? Basta olharmos alguns raros exemplos de pessoas criadas longe de seres humanos, apenas entre animais. Elas não apresentam as características especificamente humanas, tais como a linguagem, o andar ereto etc. Tais características são construídas na interação mantida entre as pessoas. O que o outro faz é, por exemplo, dar nome aos objetos, faz julgamento de valores sobre algum evento, enfim, introduz a pessoa no seu mundo cultural e simbólico, pois o homem não se relaciona de forma direta com o mundo, essa relação é sempre mediada por alguma coisa. A mediação é uma característica da consciência humana. Por que alguns de nós vêem um cachorro como um bichinho engraçadinho e outros vêem o mesmo cachorro como algo ameaçador? Nossa percepção do cachorro não é direta, imediata, mas há "algumas coisas" mediando essa relação, e essas "algumas coisas" a gente vai construindo na nossa vida, nas nossas experiências, na interação que mantemos com as outras pessoas.
Extremamente pertinente estas questões no ambiente espírita, pois neste meio também encontramos, por exemplo, certas crenças errôneas de que o sujeito é "mau" porque vem assim de outras encarnações e não há o que fazer, ou então porque supomos que o Espírito é capaz de fazer sozinho sua caminhada evolutiva
O que Vygotsky diz, sobre o papel do outro, da instrução ser fundamental para nosso desenvolvimento, já aparecia no Livro dos Espíritos:
"A humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem; quando estes se tornam numerosos, tomam a dianteira e arrastam os outros" ² (p. 789, grifo meu).
Mais ainda, podemos pensar que a inteligência, que poderia ser atribuída como algo inato, ou de certa forma independente da aprendizagem (por exemplo "tal pessoa só aprendeu porque era inteligente") na realidade pode ser o inverso, como vimos também no Livro dos Espíritos:
"Cabe à Educação combater às más tendências, e ela o fará de maneira eficiente quando se basear no estudo aprofundado da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que regem essa natureza moral chegar-se-á a modificá-la, como se modificam a inteligência pela instrução e as condições físicas pela higiene." ² (p.872, grifo meu)
Nas palavras de Vygotsky, "o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas" ³.
Voltando à nossa questão inicial, penso que podemos responder agora, dentro de uma visão tanto sociointeracionista quanto espírita: o aprendizado é fundamental para o desenvolvimento do Homem. Daí a importância que temos uns para os outros nessa nossa caminhada evolutiva.
Como é bom perceber também que estudiosos da área de educação estão atentos a isso, buscando neste momento maior entendimento quanto a estes processos de aprendizado e desenvolvimento, contribuindo para uma maior consciência dos educadores em geral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Piaget, J. Desenvolvimento e Aprendizagem,
Centro Internacional de Epistemologia Genética, Genebra, Suíça.
mimeo. (p.13)
2. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos. (Perguntas
789 e 872).
3. Vygotsky, L. S. A Formação Social da
Mente, SP, Martins Fontes, 1994 (p. 101).