O Espírita e a Coerência I
LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER
de Ribeirão Preto, SP
Princípios fundamentais do Espiritismo são as idéias, as proposições que constituem a sua base, que lhe dão suas características, seu arcabouço, sua sustentação. São suas “concepções estruturais básicas”. 1
Coerência significa “ligação, harmonia, meio entre dois fatos, entre duas idéias”.
O espírita deve ter como meta, coerência, no seu viver, com os princípios básicos da doutrina que abraça. Para isso, é preciso conhecê-los bem, através de estudo perseverante, incorporando-os no seu sentir, pensar e agir.
Há que existir uma ligação, uma harmonia entre as proposições aceitas e as ações da pessoa.
A maneira habitual como agimos nas diferentes situações e nos diferentes acontecimentos e reagimos a eles, demonstram o que realmente somos, nossas qualidades, nossos defeitos, nossas fraquezas. Se estivermos atentos às nossas ações e reações, se não for possível antes ou durante, mesmo após, analisando-as com vontade de perceber a verdade, poderemos nos conhecer muito melhor. E, quando assim fazemos, surpreendemo-nos como muitas e muitas vezes agimos incoerentemente com o que nossa razão aceita.
É a nossa luta, no estágio evolutivo em que estamos, entre o ideal almejado e a nossa realidade atual.
O apóstolo Paulo, na sua epístola aos romanos, descreveu bem essa situação: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” e “Acho então esta lei em min: quando quero fazer o bem, o mal está comigo”. 7:19 e 21
E Jean Racine (1639-1699) deixou-nos a mesma idéia neste poema: 2
Ó meu Deus, combate cruel!
Em mim, dois homens a lutar:
Se um deles me manda te amar
Com grande amor sempre fiel,
A ti, meu Deus, o outro revel
Me faz tua lei desprezar.
Um, a este mundo sendo infinito,
Manda que, sempre ao céu ligado,
E pela graça sustentado,
Eu menospreze todo o resto;
E o outro com peso bem funesto
Me traz à Terra sujeitado.
Ai! Comigo mesmo lutando,
Onde achar poderei a paz?
Quero, mas não cumpro jamais.
Quero, mas ó crime nefando,
Não faço o bem que estou amando,
Só o mal que odeio, nada mais.
Somos ainda muito incoerentes porque agir com coerência em relação às leis divinas, somente os Espíritos que já venceram a imperfeição, a ignorância, a atração dos prazeres materiais, tendo desenvolvido o reino de Deus dentro de si, o fazem.
Todavia, considerando que Allan Kardec escreveu: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações” 3, o viver do espírita tem de ser coerente com os princípios básicos do Espiritismo, pelo menos, no esforço paciente e perseverante de conquistar essa coerência.
Toda a humanidade terrena irá conquistar um dia, a perfeição que lhe dará a felicidade e a paz tão desejadas! O Espírita, pelos conhecimentos que possui, sabe que, para atingir essa meta, tem de desenvolver-se, na conquista do reino de Deus em si. Deve, pois, envidar todos os esforços, sua inteligência, sua razão, sua vontade para vivenciar o mais coerentemente possível os ensinos espíritas e, só assim, sentir-se-á incluído na concepção do verdadeiro espírita do mestre Kardec.
Esses princípios básicos são: existência de Deus, sobrevivência do Espírito, reencarnação, comunicabilidade entre vivos e “mortos” e pluralidade de mundos habitados.
Se aceitamos Deus como “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”, embora nada saibamos de sua natureza, aceitando-O pela sua obra, temos de sentir dentro de nós a confiança nas suas leis físicas e morais. É nessa confiança em sua inteligência e amor, que vamos desenvolvendo em nós as qualidades superiores espirituais: segurança, resignação, tolerância, solidariedade, indulgência, simplicidade, paciência, esperança, caridade, fé, amor, tão necessárias à paz individual e entre os homens. E nesse desenvolvimento, vamos deixando de ser filhos rebeldes para tornarmo-nos filhos amorosos e agradecidos. Já não mais podemos dizer: Deus é injusto! Este mundo é um vale de lágrimas! Por quê Fulano tem mais sorte do que eu?
Se realmente O aceitamos como o Espiritismo nos indica temos o dever de estudar suas leis, conhecê-las o melhor possível e esforçarmo-nos para viver de acordo com elas, que são sábias, justas, misericordiosas e, portanto, perfeitas.
Se aceitamos Deus como Pai de todos, temos de querer amar o próximo como a nós mesmos. Para isso, é preciso que comecemos por aceitar o outro, feio, bonito, bom, malvado, malandro, confiável, como um ser igual a nós, fazendo a mesma caminhada evolutiva, com as mesmas possibilidades, sabendo que todos nós e todos os outros também, um dia, atingiremos um grau de perfeição, como muitos já o alcançaram.
Se não existir dentro de nós, pelo menos, um pouco de boa vontade em desculpar o outro, em sentir alegria com o bem do próximo, em ver no outro um irmão, nossa aceitação de Deus ainda não se tornou convicção, fé raciocinada.
Aceitar a existência de Deus é aceitar as suas leis, toda a sua criação, compreendendo-as e confiando no seu valor, na sua justiça, na sua beleza! Para isso, temos de usar e desenvolver nossa inteligência e nossa sensibilidade!
Bibliografia:
1 - Nas Fronteiras do Além - Hermínio C. Miranda, cap. 1
2 - Antologia da Poesia Francesa - Cláudio Vieira, pág. 133
3 - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec, cap. XVII item 4