O Espírita e a Coerência II
LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER
de Ribeirão Preto, SP
Ao aceitar o princípio da sobrevivência do Espírito, que já veio à Terra “n” vezes e continuará vindo tantas vezes quantas forem necessárias, deve o espírita envidar todos os esforços para viver o mais possível no bem, trabalhando, aprendendo, servindo, amparando, dando o melhor de si em favor de si próprio, dos outros e da Terra que o acolhe.
Se aceitamos a sobrevivência do Espírito, conservando sua individualidade, num processo contínuo de evolução, temos de entender esta existência como apenas um período, importante sim, mas apenas um espaço de tempo do nosso viver eterno.
Não mais podemos analisar e avaliar pessoas, situações, acontecimentos sob o ponto de vista de uma existência, mas refletir sempre partindo da imortalidade do Espírito.
Quando se analisa as coisas sob este prisma, não se faz tempestade em copo de água, não se exageram as dificuldades e os problemas. Eles serão percebidos na sua verdadeira dimensão, como obstáculos, desafios que precisamos enfrentar, entender e solucionar conforme as possibilidades da nossa inteligência, da nossa sensibilidade e dos nossos conhecimentos.
Assim, o viver na Terra torna-se, por maiores sejam as dificuldades, mais estimulante, mais agradável, mais prazeroso.
Se aceitamos esse princípio, temos de desenvolver a confiança na perfectibilidade do homem, na capacidade de superar-se sempre. Já não mais podemos dizer: “ele não tem jeito: nasceu assim, morrerá assim”; “o mal faz parte da Terra, não desaparecerá nunca”.
A imortalidade do Espírito é um fato comprovável de um sentido, de uma finalidade do viver, do existir, do ser. Imortalidade e evolução são fatos que se relacionam mutuamente. O primeiro permite que o ser alcance a perfeição e a felicidade; o segundo é a maneira, o processo pelo qual os objetivos são alcançados.
Se a aceitação da sobrevivência e imortalidade está dentro de nós, do “eu” interior, não podemos mais continuar temendo a morte.
Os chamados “mortos” nos provam que ela não existe como fim, sendo apenas uma mudança de plano, um retorno ao lugar de onde viemos. Já passamos pela experiência da morte “n” vezes e continuamos sempre vivos.
O espírita, coerentemente com esta certeza não pode temer a morte e, muito menos, lamentá-la.
A morte do corpo físico é profundamente necessária no mundo em que vivemos, no estágio evolutivo que estamos. A natureza e os seres não se renovariam se ela não existisse.
Com o retorno ao plano espiritual, o Espírito pode avaliar este período de seu desenvolvimento, com o auxílio de amigos mais esclarecidos e com uma visão e compreensão muito maior, muito mais abrangente; repousa ele de muitas das atividades materiais, reencontra amigos e amores que partiram antes ou de outras existências, que fazem parte da sua família espiritual; aprende coisas novas, para as quais não tivera antes a maturidade necessária; renova suas energias, suas emoções, seus sentimentos; faz novos amigos, reiniciando uma nova etapa de sua infinita vida.
O espírita tem, nos ensinos da doutrina, os recursos que o auxiliam a compreender a morte como realmente ela é, sua necessidade, seus benefícios, podendo aceitá-la com serenidade, com confiança nessa lei divina, apesar da tristeza da separação que é apenas material e temporária.
Se aceitamos o princípio da reencarnação em mundos materiais para que o Espírito possa evoluir, desenvolvendo todas as suas potencialidades intelectuais e morais, devemos aproveitar todos os recursos e as oportunidades que a Terra nos oferece, no bem, no belo, na harmonia, a fim de que esse desenvolvimento se faça de uma maneira mais serena, mais agradável, evitando muitos dos sofrimentos e angústias que parecem fazer parte do viver na Terra.
Se aceitamos a reencarnação como condição sine-qua-non da evolução do Espírito, necessário se faz compreender que erros e equívocos, por desconhecimento das leis divinas, por emoções desequilibradas e sentimentos egoístas, são escolhas de Espíritos imperfeitos e rebeldes, o que não lhes tira a responsabilidade dos seus atos, de acordo com seu grau de entendimento. E é justamente, através das reencarnações que o homem vai superando suas limitações, seus enganos, num processo contínuo, dinâmico de crescimento espiritual.
Se aceitamos a reencarnação, necessário se faz trabalharmos para uma compreensão cada vez maior e melhor dos problemas, para escolhas de soluções mais harmônicas com as leis do Bem.
Muitos dos nossos problemas de hoje são conseqüências das “soluções” erradas que demos aos problemas de ontem. É o cumprimento da lei de ação e reação, da “lei das conseqüências inevitáveis”, como citou um jornalista, cujo nome não guardei, referindo-se às medidas adotadas para “consertar um problema”, apenas para vê-lo criar outro, às vezes mais grave que o primeiro.
A possibilidade de corrigir-se “soluções equivocadas” é uma das bênçãos da reencarnação.
Este entendimento deve levar-nos a sermos mais tolerantes em relação aos outros, nos seus erros e equívocos, tornando-nos assim, melhores pessoas. Essa tolerância deve estimular-nos a combater o mal, mas não o mau, ou o que erra, que se engana, como queremos que os outros nos façam, mas trabalhando para a diminuição do mal em nós e na Terra.
Ao aceitarmos a reencarnação, temos de compreender que nos cabe assumir a responsabilidade das atribulações atuais (conseqüências de ações nossas num passado próximo ou remoto), sem julgarmo-nos vítimas inocentes, buscando vencê-las, sem provocar novos problemas para nós e/ou para os outros.
O conhecimento da reencarnação nos mostra que não estamos na Terra, em passeio turístico, nem aqui viemos para usufruir a qualquer preço, os prazeres que ela proporciona. Aqui estamos para evoluir progredindo, trabalhando, alegrando-nos, solidarizando-nos, corrigindo nossos erros do passado, evitando novos erros e enganos, harmonizando-nos com os desafetos… Tudo isso e muito mais pode ser realizado sem sofrimento, sem angústia, com confiança, com serenidade e com alegria!
Aceitamos essa maneira de viver quando percebemos que a reencarnação é, talvez, a maior prova de justiça e da misericórdia de Deus, que deu a todos os seres, a mesma origem, destinou-os à perfeição e felicidade, e, todos, sem exceção, têm as mesmas oportunidades de crescimento espiritual. O livre-arbítrio de cada um determina o modo como se dá essa evolução e o tempo para atingi-la.
Sem o fato das reencarnações, como compreender a justiça de Deus?