O Espírita e a Coerência III

 

LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER

de Ribeirão Preto, SP

 

Se aceitamos a comunicabilidade entre encarnados e desencarnados, através da mediunidade, faculdade que se desenvolve no processo de relação, compreendemos que vivemos permanentemente em sintonia, em relação com Espíritos. 1

Por sermos todos médiuns, embora nem todos o sejam ostensivamente, com a tarefa, assumida antes do reencarne, de auxiliar os necessitados, deve todo espírita estudar a mediunidade para conhecê-la, compreendê-la e aprender usá-la, em seu próprio benefício, no bem.

Se vivemos constantemente em relação com Espíritos, conhecendo como se dá esse processo, usando esse conhecimento segundo os ensinos de Jesus, vamos melhorando esse relacionamento em favor de todos, nós e os que nos rodeiam, encarnados e desencarnados.

Em O Livro dos Espíritos, questão 459, perguntou Kardec se os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos, e a resposta foi: “Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos dirigem”.

O conhecimento da mediunidade nos mostra que é, principalmente, através dos nossos sentimentos e pensamentos que atraímos Espíritos mais ou menos evoluídos, que nos inspiram boas ou más idéias. Vivemos ligados, fluidicamente, ao mundo espiritual e, conforme o teor dos nossos sentimentos e pensamentos, atraímos sempre os que conosco se afinizem no bem e no mal.

Na vida material, escolhemos nossos amigos conforme nossa simpatia, nossos interesses. No relacionamento espiritual, a atração se dá por afinidade no sentir e pensar. Assim, não fazemos escolhas de companhias como na vida terrena; atraímos amigos e inimigos pelas vibrações que emitimos.

Cabe-nos, pois, o esforço prioritário, talvez assim possamos dizer, em educar nossas emoções, nossos sentimentos e pensamentos se quisermos relacionarmo-nos com Espíritos que possam nos auxiliar. Esse esforço exige assunção de responsabilidade não só no que fazemos, mas também no que sentimos e pensamos. “Vigiai e orais” disse Jesus.

Se aceitamos esse relacionamento constante entre homens e Espíritos, e se queremos conviver com amigos que possam nos auxiliar, não na resolução de nossos problemas e dificuldades (responsabilidade nossa), mas auxiliar-nos em nossa capacidade de percepção e análise dos mesmos, a fim de que saibamos escolher as soluções que “solucionem” e não as que criam outros problemas, conseqüências desagradáveis ou sofredoras, precisamos objetivar constantemente a nossa auto-educação, independente da idade que tivermos, visto que é o Espírito imortal que se educa.

Essa auto-educação que deve levar à melhoria dos sentimentos e pensamentos e ações, exige trabalho íntimo do uso do conhecimento das leis de Deus, na análise de tudo que se relacione ao homem, como ser espiritual encarnado, na análise das situações, dos fatos, procurando perceber sempre o bem existente. Perceber o mal também, mas não valorizando-o acima do bem, visto que a lei divina é o Bem, a Harmonia, o Belo, o Amor. Considerar o mal como algo existente no interior do homem, ser ainda imperfeito, existente na Terra, mundo de expiações e provas, mas não fazendo parte da essência divina da qual viemos, portanto, destinado a desaparecer pela nossa perseverança no bem.

Esforçando-nos, pois, para perceber o bem, mesmo onde o mal pareça sobressair-se; sentindo o bem, pensando o bem, estaremos atraindo Espíritos bons que nos auxiliam também a emitir vibrações de paz para todos.

Se aceitamos a existência do mundo espiritual, com seus habitantes, Espíritos que já viveram na Terra e que, como nós, encarnados, vivem o processo de evolução; se aceitamos o relacionamento entre eles e nós, precisamos aprender a conviver com eles, buscando tornar esse relacionamento o mais útil possível, para nós e para eles, esforçando-nos a viver no bem, pelo bem e para o bem de todos.

Se aceitamos Deus como “inteligência suprema e causa primária de todas as coisas” 2; a existência do Espírito, ser individual, inteligente, independente da matéria, criado simples e ignorante, fazendo sua evolução, a caminho da perfeição, segundo seu livre-arbítrio, temos de aceitar a pluralidade dos mundos habitados para que os Espíritos possam viver de acordo com suas necessidades e capacidades. “Há muitas moradas na casa de meu pai”, disse Jesus. (João 14:2)

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec escreveu sobre as diversas categorias de mundos habitados: primitivos, destinados a Espíritos que iniciam suas primeiras encarnações, não “criaturas degradadas, mas crianças que crescem”; de expiações e provas, como a Terra, servindo de exílio a Espíritos rebeldes; regeneradores para Espíritos já voltados para o bem, mas não quitados pela lei de causa e efeito; felizes, onde o bem supera o mal; celestes ou divinos, morada dos Espíritos puros, onde só existe o bem. 3

Se aceitamos a pluralidade dos mundos habitados pelos filhos de Deus, de acordo com o grau de evolução alcançado, temos um grande estímulo ao progresso nosso e de toda a humanidade terrena, bem como da própria Terra, que também evolui e se transformará em um mundo regenerador.

Se muitas vezes achamos a vida difícil, temos de compreender que quem a faz assim são seus habitantes no desrespeito as leis de Deus, aos seus deveres e aos direitos dos outros. Daí a nossa responsabilidade, no campo de ação no qual agimos, colaborar para torná-lo melhor, mais agradável.

Vivemos em um mundo de expiações e provas, mas onde existe também alegria, beleza, entusiasmo, felicidade se soubermos perceber as leis divinas, se tentarmos viver dentro dos seus padrões, buscando sempre o bem em nós, nos outros, confiantes na perfectibilidade de cada um. E a felicidade possível na Terra se desenvolverá dentro de nós, pela consciência do dever cumprido!

Precisamos reconhecer que se Deus deu a filhos rebeldes um mundo maravilhoso como a Terra, com tanta beleza estimulando-nos ao bem e ao belo, cabe-nos a responsabilidade de zelar por ela, amá-la, aproveitando as oportunidades que a convivência com homens difíceis, como somos todos, proporciona ao nosso desenvolvimento espiritual.

Esforcemo-nos para cumprir bem nossos deveres, respeitando os direitos de cada um, independente de quem seja. Trabalhemos no combate ao mal que existe em nossos corações, desenvolvendo o bem, confiantes em Deus e em Jesus, nosso guia, nosso modelo.

Sejamos pois, em nosso viver cotidiano, o mais que pudermos, coerentes com os princípios básicos do Espiritismo!

Bibliografia:

1 - Mediunidade, cap. I - Herculano Pires

2 - O Livro dos Espíritos, questão n.° 1 - Allan Kardec

3 - O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 3 - Allan Kardec