O Caboclo e a Ciência

 

LÁZARO JÂNIO SOARES DE TOLEDO

Ribeirão Preto, SP

 

Certa feita em algum recôndito canto do cerrado brasileiro, um caboclo, a contemplar serenamente a luz polarizada da lua, viu-se de súbito interpelado por afanoso rapaz em possante e suntuoso carro:

— Hei! Esta estrada vai para Óbitos? – assim vinham tais palavras, brotando de um olhar algo tempestuoso, sem as primícias do cumprimento cordial.

— Num sei sinhô. Mais pru quê? Talveiz ieu possa ajudá?

— Não, não… Obrigado, tchau.

Irrompia então pelo chão lato da estrada aquele jovem em seu veículo, deixando para trás pesarosa nuvem de poeira.

Ao se refazer a paz habitual do local, o caboclo acomoda sua viola em seu colo e enceta o dedilhar de harmoniosa melodia a entrosar-se com o cantar dos casais de aves, que zelavam por seus filhotes nas ramagens dos arbustos e árvores que por lá havia.

Florescia ali mais um foco radiante na imensidão do cosmo, nascido da reunião das forças criadoras da natureza.

Algo que certamente faz insurgir dúvida ou mal-estar na mente de muitos homens frente a tal cena, é a presença de um ser humano nela. Se todo o descrito fosse protagonizado por uma revoada de pássaros banhada pelo luar, far-se-ia muito fácil configurar tal imagem na mente. Contudo, para a maioria terrestre, o comentado restringe-se puramente a um devaneio poético ou a um idealismo bucólico, sem liames com a realidade. Calma, o “intangível” ainda está por vir…

Nossa história prossegue com o retorno do rapaz surpreendendo o nosso amigo caboclo:

— Hei, amigo! Você sabe se há alguma hospedagem aqui por perto? – falava agora uma voz mais fagueira, que não mais saía de dentro de um amontoado metálico impelido por energias comburente e elétrica, cujos entendimento e utilização pode nossa mente humana desvendar em recente passado de nossa história. Estava agora o mancebo bem à frente de nosso caboclo com a mão estendida, pronta ao cumprimento.

Obtempera então o artista do luar:

— Óia amigo, aqui pur pierto só tem minha casa; si o sinhô num si incomodá cum casa simples, podi posá cum a gente. Ieu tenho certeiza que minha patroa e meus pimpolho vão de ficá muito feiliz di recebê u sinhô.

— Mas eu não vou incomodar?

— Di jeito ninhum. Vamu lá! Mais antis, deixa ieu mi apresentá: Antonho, ao seu dispor.

— Muito prazer seu Antônio, Fernando de Alcântara e Camargo. Mas seu Antônio, me diga uma coisa, desde aquela hora em que eu passei aqui o senhor tá sentado aí?

— Sim, sinhô…

— Tocando viola?!…

— Craro. É qui ieu tô querendo faizê uma música de aniversairo pra minha nega e ocê sabe né?, é noite de lua cheia e até os parsarinho canta mais rritmado nessis ddia… Ieu tô é apruveitando a luiz do luar de hoje! Dispois, inda vô usá us outro treis luar e a luiz du sor, pur que ieu quero dá pra minha nega toda a luiz du mundo numa só canção.

— Engraçado… Pra mim os pássaros cantavam igual todo dia.

— Enganu du sinhô. Si u sinhô prestá atenção vai vê qui u canto delis muda cum a lua, cum vento, cum u crima, até cum quem e como passa pur aqui.

— Ah, é! E quando eu passei, como é que ficou a “sinfonia” dos pássaros?

— Parô…

Diante dessa história, que continuou ainda, e descortinou um mundo novo para aquele jovem, vemos o raciocínio de observação do caboclo quando ele comenta as variações comportamentais dos pássaros consoante diversos fatores, algo que engrena muito com o fato sabido pela ciência, digamos aqui comum, de que as espécies animais e vegetais têm seu ciclo de vida determinado pelo ambiente mais seu genótipo. Aquele velho papo de que o fenótipo é o resultado da interação entre genótipo e meio ambiente.

A força gravitacional que a Lua troca com as massas líquidas dos oceanos faz variar os parâmetros físicos destas últimas, refletindo-se em renovadas concentrações iônicas e moleculares, em oscilações térmicas, todas estas influindo no metabolismo dos organismos e sua regulação neuroendócrina intrínseca. Daí surgem mudanças comportamentais de cardumes marinhos inteiros, por exemplo.

Porém, o nosso sábio caboclo vai mais além.

Abraça uma ciência muito mais armamentada, pois não se restringe a enfoques de uma mera força gravitacional, componente de um campo físico importante, atuante em corpos dotados de massa e portanto palpáveis. Utiliza para si e para sua observação a luz, onda eletromagnética que passou a ser palpável com o aperfeiçoamento do intelecto humano, capaz de se propagar no que a ciência comum chama de “vácuo”, interpretado como ausência de matéria. Porém esquece que nesse “vácuo”, assim como na nossa matéria planetária, existe o fluido cósmico, quintescência das formas grosseiras do elemento material percebidas nos exíguos limites dos nossos cinco sentidos corpóreos. Isto define fisicamente um campo de forças independente de massa.

O caboclo consegue tamanha proeza, pura e simplesmente, inspirado em seus bons sentimentos e em sua amada, valendo-se de um raciocínio por completo despreconceituoso, muitas vezes, e infelizmente, enxotado pela opinião geral, apenas por apresentar-se em uma forma vocabular peculiar e sem títulos ou pompa.

Se nós, seres humanos, nos desvencilharmos de nossos preconceitos, nascidos de nosso orgulho pessoal, tratando fraternalmente e com real consideração uns aos outros, poderemos haurir a paz de que nosso amigo caboclo dispõe e toda a sua CIÊNCIA, ascendendo pela trilha do mestre maior, Cristo, exemplo inefável da conjugação do binômio amor-razão, sustentáculo da codificação kardequiana.

O autor é integrante da Mocidade Espírita Cairbar Schutel da C. E. Donzela de Orleans.