No sustento da paz

 

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA

de Ribeirão Preto, SP

 

“Vivei em paz uns com os outros” - Paulo (I Tessalonicenses, 5:3)

Costumamos falar sobre a violência urbana, como se ela fosse um problema social, que nos prejudica, e pelo qual não somos responsáveis. Porque nos julgamos pessoas cumpridoras das regras sociais, achamos que já fazemos a nossa parte. Entretanto, a sociedade é o somatório dos indivíduos, e o que ocorre no social é fruto do que, primeiro, teve lugar no íntimo de cada um. “Todos agimos uns sobre os outros e, ainda que a nossa influência pessoal se nos figure insignificante, ela não é menos viva na preservação da harmonia geral”1

A Doutrina Espírita nos esclarece que, a medida que construímos o equilíbrio íntimo, a paz interior, contribuímos naturalmente para que essa mesma paz beneficie outras pessoas. Observamos que, há algum tempo, um número cada vez maior de pessoas vem se despertando para esses temas que a Doutrina Espírita estuda, há mais de um século. Temas como autoconhecimento; a transformação íntima, visando eliminar ressentimentos, mágoas, desejos (até inconscientes) de vingança, vêm sendo estudados com grande interesse.

No dia 5 de abril, na sede do Centro Médico de Ribeirão Preto, o Prof. João Roberto Araújo, orientador do grupo “Ribeirão Preto Pela Paz”, proferiu palestra para diretores de escola, e orientadores educacionais, da rede municipal de ensino, cujo conteúdo, por oportuno, registramos as partes essenciais. Disse ele: Recebemos na vida satisfação e frustração. Esta gera agressividade que é como um “não” que se coloca diante de nós, e nós buscamos superar. A agressividade não só é negativa, destrutiva, que provoca violência. Há a agressividade que provoca mudanças necessárias, que nos leva a uma situação melhor. Exemplo disso é o nascimento. O nascituro se sente cada vez mais desconfortável no ventre materno, e o parto se torna inevitável. A paz resulta do equilíbrio entre frustração e satisfação.

A violência tem raízes profundas. Nem sempre podemos reduzir as frustrações pois há todo um passado de experiências, nem sempre harmoniosas, que acarreta conseqüências no presente. A ciência e a tecnologia, esta fruto daquela, progrediram muito, mas isto não significa, para todos, melhor qualidade de vida. Não percebemos a violência que está na cultura.

O que fazer para enfrentar a violência? Há três grandes intervenções: Primeira a repressão realizada, no social, pela polícia, e que também praticamos no relacionamento familiar. Quando proibimos um filho de fazer um passeio, ou ver TV, por ter feito algo errado, praticamos a repressão, Porém, só a repressão não basta. É como uma doença, a meningite, por exemplo. Não basta combater a febre, necessário também combater a causa da doença. O remédio para combater a febre (repressão) é necessário, mas se não combater a causa (a bactéria que produz a doença) o enfermo não vai sarar. Segunda intervenção é buscar melhor qualidade de vida para as pessoas. Mais justiça social. Minorar as dificuldades materiais, são as políticas sociais, e as ações de pessoas e instituições que buscam ajudar os mais carentes, o que é muito importante. Carências fortes de recursos para atender necessidades básicas geram conflitos. Todavia essa dimensão não explica toda a violência. Bombaim, cidade da Índia, com mais de 10 milhões de habitantes, muito pobre, possui índices de criminalidade baixíssimos. Não se deve relacionar pobreza com violência. Esta existe também entre as classes chamadas média e alta. Terceira intervenção, para reduzir a violência, é a questão da cultura, da educação. Os valores considerados pelo homem, em sua vida, são fundamentais para definir-lhe o modo de viver. Valores são coisas que orientam nossas vidas. Há valores que favorecem a violência e valores que favorecem a paz. Se a pessoa considera o dinheiro, o poder econômico, como o mais importante, para comprar o que bem entender dificilmente estará em paz. A ambição, a ganância, não tem limites. Quando se consegue o desejado, passa a desejar algo mais, e assim por diante. Outro valor que dificulta a paz é o imediatismo. Não saber esperar. Querer ver o fruto do trabalho a curto prazo. Também a “certeza” sobre aquilo que se sabe, ou que se acredita saber, o julgar-se dono da verdade, tornando-se inflexível, e não ouvir o outro lado, buscando sempre impor seu ponto de vista. São valores constantes de nossa cultura que dificultam o estabelecimento da paz.

A paz é construída por nós, transformando os valores que favorecem a violência, por outros que nos facilitam o viver em paz. O que somos é mais importante do que o que temos; aprender a ouvir, a dialogar. O diálogo não pede consenso, pede respeito. Respeitar as diferenças. Estas enriquecem a vida, embora tragam alguma dificuldade. Todos podemos cooperar para uma cultura de paz.

Como se vê, são reflexões afins com o que estudamos em Espiritismo, e que, atualmente, muitos estão trabalhando pela divulgação desses princípios que nos levam a uma melhor qualidade de vida.

“Todos somos chamados à edificação da paz, que depende de nossa luta por melhorar-nos e educar-nos, de vez que paz não é inércia e sim esforço, devotamento, trabalho e vigilância incessantes a serviço do bem. Nenhum de nós está dispensado de auxilar-lhe a defesa e a sustentação, porquanto, muitas vezes, a tranqüilidade coletiva jaz suspensa de um minuto de tolerância, de um gesto, de uma frase, de um olhar... Não te digas, pois, inabilitado a contribuir na paz do mundo. Se não admites o poder e o valor dos recursos chamados menores no engrandecimento da vida, faze um palácio diante de vigorosa central elétrica e procura dotá-lo de luz e força sem a tomada”2

 

1 e 2 - Emmanuel - do livro “Palavras de Vida Eterna”, psicografia de Francisco C. Xavier