“Educação e 3.ª idade”
MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
Quando falamos em 3.ª idade as idéias que imediatamente vêm à nossa mente são: aposentadoria, atividades para passar o tempo, tédio, sofrimento… Muitas vezes nos esquecemos de pensar no contexto mais amplo da espiritualidade, e o que fica mais evidente é a decrepitude física, a decadência do corpo, a incapacidade. Que visão limitada essa!
Precisamos lembrar que nossa vida de encarnado se faz por etapas, em que se trabalham aspectos diferentes e se ganham sempre algumas coisas. A velhice não é diferente, também faz parte do processo evolutivo.
Alguns estudiosos, como Erikson (1), nos dizem que a cada etapa de nossas vidas temos “tarefas’’ a cumprir, que resultam em “Fortalezas Humanas”. Observando tais tarefas e acrescentando uma visão espírita, poderíamos resumi-las da seguinte maneira: infância - adaptação do Espírito ao corpo, crescimento desenvolvimento mental básico, adaptação ao meio sociocultural; formação de laços afetivos com a família etc.; adolescência maturação das funções sexuais, adaptação ao novo corpo (agora modificado, assemelhando-se mais ao que será na vida adulta, nova forma de raciocínio; preparação para a vida profissional, retomada do caráter do Espírito etc.; juventude - busca de um companheiro, início da vida profissional; caminho em direção à independência etc.; fase adulta - fase de produção, geração de filhos, cuidado com os filhos, obras que sobrevivam a pessoa (obras de caridade, escrever livros, plantar árvores…) etc.
E o que dizer da maturidade, a tão falada 3.ª idade? Se fisicamente a nossa vida de encarnado apresenta-se como uma curva que ao chegar nesse momento da vida tende a decair, ao se falar em evolução intelectual e moral, espiritual enfim, a curva se apresenta sempre ascendente, quando muito estacionária, por opção do próprio Espírito. O que isto significa? Que chegada a 3.ª idade é o momento do usufruto das conquistas, ou seja, se há aposentadoria significa que não há mais a necessidade do trabalho pela sobrevivência, mas a oportunidade do trabalho pelo próprio crescimento. A experiência de vida apresenta-se como uma gigante aliada ao crescimento intelectual e moral, pois pode vir engrandecer, exemplificar, servir de casos para análise a aspectos ou temas que a pessoa se proponha a estudar. Lembramos que os estudiosos da psicologia afirmam que o desenvolvimento mental, quando estimulado, não decresce como o físico, com a idade.
Também nesta fase já não há mais a responsabilidade direta pelos filhos, é um outro tipo de relação que se estabelece com eles. É um momento de renúncia por um lado, pelas próprias condições físicas que se alteraram - o que, aliás, também acontece em todas as etapas, neste aspecto há perdas e ganhos - e de batalha pelo próprio crescimento.
Às vezes as condições físicas podem de fato dificultar momentaneamente a manifestação do Espírito, mas outras vezes vêm apenas nos servir de desculpa para não nós esforçarmos para crescer: Quantas vezes ouvimos senhores e senhoras dizerem: “Na próxima encarnação quero estudar muito, quero aprender tal coisa etc.”, esquecendo-se que poderiam começar já, que muitas vezes a dificuldade sentida hoje continuará a existir, porque ninguém conquista nada sem seu próprio esforço.
A nossa vida de encarnado é um espaço pequeno diante da vida imortal, o - que nos autoriza a dizer que não somos jovens, adultos ou velhos, mas que estamos jovens, adultos ou velhos. Todos temos diversas oportunidades enquanto Espíritos, e a reencarnação nos coloca em diferentes posições a cada momento. É importante nos lembrarmos disso quando estivermos passando por qualquer uma das fases da vida, seja como responsáveis por outros seres (crianças ou pessoas momentaneamente incapacitadas), ou até como circunstancialmente dependentes de outros companheiros de jornada.
Ainda assim cada um é responsável pelo seu próprio crescimento, e as chances para que isso ocorra são imensas, basta olhar à nossa volta, aproveitar a convivência com os outros; refletir sobre tudo que vemos, procurar ler e conversar sobre o que lemos. Nos momentos mais corriqueiros da vida há chances de aprendizado, da observação da natureza até a novela da TV, desde que a partir daí coloquemos a cabeça para funcionar, pois quanto mais fizermos isso, mais ela estará em condições de se desenvolver. A responsabilidade é nossa; condições todos temos, cada um dentro de suas próprias características. O importante é lembrar que todos nascemos aqui para crescer, e que a velhice não é um momento de esperar a morte, de descanso; de apenas distração, mas é um momento precioso, pelas suas próprias características, de crescimento.
Basta que saibamos vê-la assim.
Referência Bibliográfica:
(1) Erikson, E.H., Infância e Sociedade, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
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