Milú, Zilda e Marc Lewis

 

NILZA TERESA ROTTER PELÁ

de Ribeirão Preto, SP

 

Quem são as pessoas acima nomeadas? Vamos apresenta-las: Milú Villela é presidente do Faça Parte - Instituto Brasil Voluntário; Dra.. Zilda Arns é fundadora e Coordenadora Nacional da Pastoral da Criança; finalmente Marc Lewis é autor do best-seller Sin to Win (ainda sem tradução para o português mas significa Pecar para vencer).

Na semana de 10/03/2001 essas três pessoas apresentaram e foram apresentadas pela imprensa, as duas senhoras com matéria por elas escritas e o escritor por uma entrevista. Milú Villela escreveu no jornal O Estado de São Paulo (12/03/2002) matéria intitulada O voluntariado como estratégia de educação, Dra. Zilda escreveu na revista Veja matéria denominada Uma nova era (edição 1742 de 13/03/2002), e a entrevista com Marc aparece nas páginas amarelas do mesmo fascículo de Veja.

Lendo as três matérias veio à nossa mente como esses textos poderiam ser explorados à luz da Doutrina Espírita dentro das casas Espíritas, para subsidiar as discussões sobre o que se convencionou chamar Os sete pecados capitais; uma vez que o autor do livro apregoa que “Orgulho, preguiça, luxúria, gula, avareza, inveja e ira, os sete pecados capitais, são nossas maiores fontes de motivação. São coisa que nos dão inspiração para o sucesso.” Diferentemente as duas senhoras apregoam a solidariedade como instrumento de transformação social.

André Luiz no capítulo Culto Doméstico, do livro Os Mensageiros, apresenta esta metodologia descrevendo o culto na casa de D. Isabel, viuva que junto aos filhos realizava a discussão de temas doutrinários utilizando-se da literatura espírita e de recorte de jornais com assuntos recentemente ocorridos.

O primeiro aspecto que merece discussão é o conceito de pessoa bem sucedida apresentado na entrevista do autor do livro Pecar para Vencer, e pode-se perguntar se podemos considerar Milú e Dra. Zilda como não vencedoras por terem como estratégia de ação a solidariedade, sendo que a primeira teve reconhecimento internacional por se responsabilizar no Brasil pelo ano internacional da SOLIDARIEDADE e a segunda por conseguir reunir grupo predominantemente de donas de casa em ações simples no combate à mortalidade infantil que teve seus índices diminuídos.

Outro ponto que merece destaque é a colocação de Marc em certo trecho da entrevista, quando falando da ira diz “Como empresários, temos a responsabilidade de dividir nossas fortunas e nosso sucesso. A educação é a chave” e quando apontado pelo repórter a sua contradição afirma: “A vida é mais complexa do que parece”. Não seria mais fácil desde o começo dizer que não podemos mais viver como ilhas isoladas da solidariedade pois senão viver no mundo vai se tornar impossível. Não seria melhor admitir como Milú e Dra. Zilda e muitos outros anônimos que sem levar em consideração o outro, nos preocupando apenas com nossos interesses a vida se torna muito estéril?

A solidariedade é terapêutica como afirmou uma voluntária em entrevista na televisão: “minha depressão foi curada no voluntariado, eu muito mais sou beneficiada que beneficio.”

Milú Villela afirma que mudar pessoas e instituições é tarefa difícil pois esta ligado ao sentido que cada um tem do valor da vida e propõe que este aprendizado seja o mais precoce possível trabalhando com os jovens em ações de voluntariado, pois só na vivência de problemas reais é possível construir uma sociedade mais justa.

Essas afirmações não são novas para nós os espíritas, Kardec já as explorou em Leis Morais em O Livro dos Espíritos, o que merece ser destacado é que agora começam esses conceitos a serem explorados não como ato de sacrifício pessoal mas como estratégia educativa do ser humano.

Na leitura da entrevista de Marc Lewis ocorreu-nos quanto seria interessante em um grupo de estudo cotejar as colocações do autor com o livro de Hammed, psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto, As Dores da Alma, que aborda os sete pecados capitais como a fonte do sofrimento pessoal e das dificuldades do viver em grupo. Magistral também seria o estudo do item O egoísmo e o Orgulho: causas, efeitos e meios de destrui-los, que consta da primeira parte de Obras Póstumas.

Levantando em Vade Mecum Espírita (6.ª ed.), que cataloga 347 obras espíritas desde as obras básicas, Revista Espírita passando pelos consolidadores (Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion e Ernesto Bozzano) até obras contemporâneas, vamos encontrar no verbete orgulho 24 textos arrolados, em gula, 3; em avarento, 14; em inveja, 15; em irritação, 15. Luxúria e preguiça não existem como verbetes, nesta obra, mas sem dúvida são temas explorados na literatura espírita.

Um assunto de tal relevância que tanto faz as pessoas sofrerem e os grupos familiares e sociais se desintegrarem não justificaria a criação na casa de um grupo de estudos? Como diz Hammed no livro supra citado: “Quem tem um mínimo de clareza íntima procura discernir…”

A idéia está lançada.