“A Casa dos Mil Espelhos”

 

MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES

de Ribeirão Preto, SP

 

Anda circulando pela Internet um texto atribuído ao folclore japonês, nomeado A Casa dos Mil Espelhos, que me chamou a atenção para alguns aspectos importantes a serem discutidos pelos Espíritas, do ponto de vista da Educação. Transcrevo o texto abaixo:

“Tempos atrás, em um distante e pequeno vilarejo, havia um lugar conhecido como a casa dos mil espelhos. Um pequeno e feliz cãozinho soube deste lugar e decidiu visitá-lo. Lá chegando, saltitou feliz escada acima até a entrada da casa. Olhou através da porta de entrada com suas orelhinhas bem levantadas e a cauda balançando tão rapidamente quanto podia. Para sua grande surpresa, deparou-se com outros mil pequenos e felizes cãezinhos, todos com suas caudas balançando tão rapidamente quanto a dele. Abriu um enorme sorriso, e foi correspondido com mil enormes sorrisos. Quando saiu da casa, pensou, - Que lugar maravilhoso! Voltarei sempre, um montão de vezes. Neste mesmo vilarejo, um outro pequeno cãozinho, que não era tão feliz quanto o primeiro, decidiu visitar a casa. Escalou lentamente as escadas e olhou através da porta. Quando viu mil olhares hostis de cães que lhe olhavam fixamente, rosnou e mostrou os dentes e ficou horrorizado ao ver mil cães rosnando e mostrando os dentes para ele. Quando saiu, ele pensou, - Que lugar horrível, nunca mais volto aqui. Todos os rostos no mundo são espelhos. Que tipo de reflexos você vê nos rostos das pessoas que você encontra?”

Meu questionamento a partir deste texto, que é rico em possibilidades de reflexão, girou em torno da questão das condutas, e o quanto disso é possível ensinar às pessoas.

Trata-se da possibilidade de transformação moral pela qual as pessoas devem passar, do libertar-se do egoísmo e egocentrismo, de sair de dentro de si mesmo, e perceber os outros à nossa volta. Isso é visível na ilustração apresentada: o cãozinho hostil parece fechado em si mesmo, com medo de todos, e sem se preocupar com os sentimentos dos outros em relação à sua postura. Já o outro cãozinho, com sua alegria e abertura para as coisas novas que pode encontrar pela frente, denota uma outra postura.

Uma analogia a partir deste texto é muito interessante, porque mostra muito do que acontece de fato. Quantas vezes uma pessoa chega para brigar conosco, mas nossa postura acaba alterando toda a situação, propiciando um encontro produtivo. O oposto também é verdadeiro: às vezes alguém tenta esclarecer alguma situação mal resolvida conosco, e nossa inferioridade não nos deixa ver e aproveitar esse momento. O orgulho, a vaidade e o egoísmo acabam falando mais alto, cortando a possibilidade de, naquele momento, acertarmos alguma pendência.

A questão que coloco é: como se ensina isto? Como trabalhar com as questões de conduta e postura? Como uma pessoa pode deixar de ser carrancuda? Estar sempre na defensiva? Como uma pessoa se tornar meiga? Interessada e aberta aos outros? Não é por aí a grande questão da transformação moral?

A princípio pode parecer que esta é uma questão pessoal, que depende apenas da própria pessoa sua escolha sobre esta transformação. Mas na verdade hoje somos impelidos a encontrar outras respostas, pois a responsabilidade do crescimento é de todos nós, que vivemos em sociedade. É uma questão de responsabilidade coletiva. Assim como nos sentimos responsáveis por educar as crianças de nossa comunidade, (participando de conselhos, votando em alguém preocupado com a Educação, denunciando escolas que funcionam mal) deve fazer parte de nossas preocupações o desenvolvimento espiritual de todo nosso grupo. Exemplos belíssimos desta preocupação: Emmanuel, André Luiz, Bezerra de Menezes, entre tantos outros.... Se olharmos suas mensagens, veremos que elas apontam para a questão da transformação moral. Eles estão fazendo sua parte nesta luta pela evolução de todos. Em diferentes níveis, cada um de nós pode se sentir também parte desta luta, não é necessário ser perfeito para então ensinar; ao contrário, é nesta troca que também se aprende muito.

Esta questão de que é a conduta que precisa ser mudada é amplamente discutida no Evangelho Segundo o Espiritismo: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações. Enquanto um se compraz no seu horizonte limitado, o outro, que compreende a existência de alguma coisa melhor, esforça-se para se libertar, e sempre o consegue, quando dispõe de uma vontade firme.”¹

A questão da responsabilidade social, também é bastante explorada por Kardec, no Livro dos Espíritos: “O homem tira de si mesmo a energia progressiva ou o progresso não é mais do que o resultado de um ensinamento? - O homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente, mas nem todos progridem ao mesmo tempo e da mesma maneira; é então que os mais adiantados ajudam os outros a progredir, pelo contato social.”² (p. 779). “A humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem; quando estes se tornam numerosos, tomam a dianteira e arrastam os outros”² (p. 789).

Propiciar mudança de condutas dos que convivem conosco é mais do que exigir simples repetições sem sentido de nossos educandos. Pensar em formas de propiciar aos outros – filhos, alunos, evangelizandos, ouvintes de palestras, etc. – que se modifiquem, implica também em olhar para nós mesmos, nossa postura e conduta. Implica averiguarmos o quanto do cãozinho feliz ou hostil nós carregamos conosco, e como, em grande parte, depende da gente a opção, a escolha, de como agir em diferentes situações. O exemplo possibilita esse aprendizado; através dele nos tornamos ensinantes. E isto é parte do nosso compromisso social.

 

Referência Bibliográfica:

1. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec. Cap. XVII.

2. O Livro dos Espíritos, Allan Kardec. Cap. VIII.

 

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