Paciência
LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER
de Ribeirão Preto, SP
Na sua caminhada evolutiva, o espírito evolui de forma diferente nas suas potencialidades, ou seja, desenvolve ora mais um aspecto, ora outro, ao sabor das situações que vive e das reações que manifesta a elas.
Assim, suas faculdades superiores vão se desenvolvendo, paulatinamente, em situações e tempos diferentes, provocando desequilíbrios, às vezes muito grandes, entre umas e outras. Por exemplo: pessoas que desenvolveram o sentimento da justiça, mas não o sentimento da boa vontade para com o outro (benevolência), tornam-se rígidas, inflexíveis; o patriota sem o sentimento da fraternidade, o religioso sem o respeito ao livre-arbítrio do outro, tornam-se ambos fanáticos e intransigentes.1
Essa desigualdade de desenvolvimento espiritual demonstra e explica, em primeiro lugar, a necessidade de reencarnações em mundos materiais para que o espírito atinja seu destino de perfeição e felicidade, pois precisa de muito tempo e de vivências diferentes para desenvolver todo o seu potencial intelectual e moral; em segundo lugar, a complexidade do homem, suas contradições, seus paradoxos, suas dificuldades interiores.
Daí, a necessidade de conhecer-se a si mesmo, aceitar-se como se é, amar-se para, a partir deste ponto, esforçar-se em corrigir as falhas, desenvolvendo as qualidades boas que já se mostram em determinadas situações, controlando as más inclinações que refletem resultados de erros e enganos de vidas passadas, sem ansiedade, sem angústias. Confiança em Deus, nos seus mensageiros do bem, irmãos maiores que já passaram pelo que passamos, compreendendo nossas dificuldades, sabendo pois, ajudar-nos e, confiando em nossas possibilidades de progresso, de aperfeiçoamento, porque Deus nos fez perfectíveis.
Nós, os cristãos, estamos comprometidos em seguir os exemplos do Mestre Jesus, esforçando-nos para desenvolver as virtudes que ensinou e exemplificou.
Virtude é “Disposição habitual para o bem, para o que é justo.” Não é pois, o comportamento no bem de vez em quando, é a ação no bem continuada, vivida naturalmente. Por isso, Emmanuel escreveu: “todavia, a virtude é sempre sublime e imorredoura aquisição do espírito nas estradas da vida, incorporada eternamente aos seus valores, conquistados pelo trabalho no esforço próprio.”2
Dentre as virtudes, qualidades superiores do espírito imortal, a paciência é uma das mais necessárias na vida de relação entre os homens. Se poucos a possuem, manifestando-a em qualquer situação, com qualquer tipo de pessoa, é porque, segundo Emmanuel1: “a paciência é uma exteriorização da alma que realizou muito amor em si mesma, para dá-lo a outrem, na exemplificação.”
Como vemos, em um mundo de expiações e provas, não devem existir muitas pessoas realmente pacientes. Isso demonstra que se ainda não somos pacientes, temos o dever de tentar ser, esforçando-nos por essa conquista, sem a qual viveremos sempre nos relacionamentos difíceis, com todas as suas conseqüências desagradáveis.
Segundo o dicionário, “paciência é a virtude que consiste em suportar os males ou os incômodos, sem queixumes e com resignação.” Como entender? Acomodar-se? Não. Não é: “— Deus quis assim”, cruzando os braços . Não, ter paciência é procurar compreender as causas e os motivos dos males e das dificuldades para, com serenidade, tentar resolver da melhor forma possível a nova situação. É não rebelar-se, não desesperar-se, julgando-se vítima inocente e infeliz.
A paciência usa a tolerância e a benevolência em relação a quem provoca os males, sejam outros ou a própria pessoa, procurando compreendê-los (os males) sem lamentações e queixumes; tentar libertar-se deles com inteligência e serenidade, sem dar-lhes mais importância do que têm. A paciência é sempre aliada da serenidade, da harmonia, beneficiando quem a manifesta e aos outros que partilham da situação ou que estão presentes.
Uma pessoa paciente numa situação difícil, consegue manter-se equilibrada para melhor entender o acontecido e transmite aos demais esse equilíbrio, que leva todos a procurarem as melhores soluções.
Muitos dos nossos sofrimentos e dificuldades são conseqüências de soluções equivocadas que demos em situações difíceis anteriores, que por isso não foram resolvidas e geraram outras conseqüências tão ou mais desagradáveis. A paciência facilita a compreensão na busca da melhor solução, a que realmente resolve, sem adiar ou gerar novos problemas em um futuro próximo ou remoto.
Por não sermos pacientes, muitas vezes dificultamos o desenvolvimento de outras qualificações nas quais já conseguimos um considerável progresso., provocando desarmonia no conjunto dessas qualidades pessoais.
Por impaciência, ofendemos ou magoamos pessoas a quem amamos; perturbamos outras que também lutam por progredir; aumentamos as dificuldades da situação, criando outras novas, impedindo, em nós, a ação de qualificações já possíveis de manifestação.
Como desenvolver a paciência em nós?
Sendo ela a “exteriorização da alma que já realizou muito amor em si mesma”, percebemos a relação dela com outras virtudes; percebemos que precisamos trabalhar em nosso interior, com nossos sentimentos, através de raciocínios lógicos, convencendo-nos da necessidade desse trabalho. Precisamos argumentar conosco sempre antes, durante e após nossas reações a qualquer estímulo interno ou externo. Pensar com lógica para melhorar nossos sentimentos, isto é, usar o raciocínio para mudarmo-nos interiormente.
Então, a primeira coisa é a conscientização de que, sendo espíritos imperfeitos e eternos com livre-arbítrio, cabe-nos a tarefa desse desenvolvimento Em seguida, esforçarmo-nos sempre para conhecermo-nos, o mais e melhor possível, sem ilusões, sem camuflagem, sem desculpas. Daí, aceitarmo-nos como somos, como nos fizemos até agora, com o que temos de qualificações e imperfeições e amarmo-nos ao ponto de nos dispormos a fazer de nós pessoas melhores, a conquistarmos as qualificações necessárias à nossa paz, à nossa felicidade
Para isso, precisamos acionar a alavanca da vontade no bem, de muita disciplina na manutenção do uso desse instrumento, com vigilância constante para pegarmo-nos em flagrante nos deslizes e equívocos, caindo muitas vezes, mas levantando sempre, cada vez mais rapidamente e com mais segurança. Oração para facilitar a ajuda dos planos mais altos no fortalecimento desse esforço.
A paciência, como as demais virtudes, não vem pela graça divina, nem se adquire nas lojas da vida, como disse Emmanuel, é conquista interna de cada um, num esforço contínuo e perseverante, aproveitando, nas situações do próprio viver, as lições de autodomínio.
Ela, como suas irmãs, se desenvolve no exercício da tolerância, da justiça que busca ser justa com o próximo sem exigir reciprocidade. Desenvolve-se também no exercício da renúncia de pequeninas coisas, principalmente, dentro do lar, que nos oferece as melhores oportunidades desse aprendizado. “A renúncia é a mestra da paciência.”3
Para conquistar a paciência é necessário procurar justificar com sinceridade, os desmandos alheios, por considerá-los frutos de motivos difíceis para eles e desconhecidos por nós. Assim, não os veremos como adversários ou pessoas intratáveis, mas como pessoas com problemas, que precisam da nossa paciência, tanto quanto precisamos da paciência deles e dos demais.
Que possamos pois, esforçarmo-nos para desenvolver em nós, sem exigir dos outros, a paciência de ouvir, de falar, de repetir, de ensinar, de aprender, de tolerar, de auxiliar, de aceitar os males que não podemos evitar, trabalhando pelo nosso progresso espiritual, colaborando para a melhoria do ambiente no qual vivemos e, consequentemente, para o progresso espiritual dos que convivem conosco.
Bibliografia:
1 Literatura espírita (não me recordo do livro, nem do autor)
2 XAVIER, Francisco Cândido/Emmanuel. O Consolador - q. 254
3 XAVIER, Francisco Cândido/Irmão X. Pontos e Contos - cap. XXXIX