Os 20% e os 80%
NILZA TERESA ROTTER PELÁ
de Ribeirão Preto, SP
Estranho título, deve estar pensando o leitor. Ele surgiu de uma conversa com uma professora que, há mais de 40 anos, leciona em escola de ensino fundamental de periferia em uma cidade de médio porte do interior do estado de São Paulo.
Iniciou sua lide ainda jovem, recém formada pela antiga escola normal, e exerceu o magistério inicialmente na zona rural, transferindo-se depois para a cidade. Aposentada após trinta anos, resolveu continuar ensinando e logo foi convidada a assumir uma classe em uma escola particular de classe média alta com salário compensador. Sua missão, entretanto, a chamava para voltar à periferia, o que ela fez e continua fazendo até hoje.
Como já colocado, conversávamos sobre os jovens de sua escola onde há alunos egressos da FEBEN, gangues, usuários de drogas, adolescentes grávidas e todos as demais coisas que ouvimos diariamente nos noticiários da televisão, foi quando ela fez a afirmação: “esses não passam de 20%, os outros 80% são interessados e participativos e acabam sufocados pelos transgressores”.
Com essa conversa na cabeça começamos a prestar atenção a essa questão quando lemos matéria de O Estado De São Paulo em 23 de abril com o seguinte título e subtítulo: “Realista, adolescente acredita em mudança social - pesquisa contesta visão de a juventude de hoje é superficial e alienada.”
A referida matéria tem como base o estudo de um psicanalista brasileiro, publicada em livro intitulado “Ideais da adolescência” e durante a entrevista concedida ao jornal o autor faz a seguinte afirmação: “Os jovens usam a estratégia de restringir os seus ideais ao que é possível. Em vez de transformar o mundo, como queria a geração de 60, tem a intenção de mudar sua realidade imediata, sem deixar de manter uma perspectiva transformadora.”. Afirma ainda que há compreensão de que pequenas ações individuais como colaborar para a reciclagem do lixo e plantar uma árvore representam um benefício para o bem comum.
Vivemos nesta semana (13/5) o fato, noticiado pela imprensa, do desrespeito de alguns jovens estudantes durante a apresentação de uma peça teatral apresentada no teatro Pedro II o que fez com que o ator interrompesse a apresentação para fazer algumas considerações sobre o comportamento aversivo dos jovens. Ali ficou claro que não foi o comportamento predominante do grupo, mesmo porque ao término e no dia seguinte, vários estudantes se manifestaram colocando sua não concordância sobre o procedimento desrespeitoso. Foi ótimo como o assunto foi tratado, pois não ficou somente no comportamento aversivo, foi dado espaço e voz àqueles que sabem e querem se comportar de maneira adequada, pois infelizmente, na grande maioria das vezes se valoriza o arruaceiro sem se dar o devido valor aos de bom procedimento.
Não vamos ignorar nem nos furtar de assistir àqueles que transgridem, mas também vamos valorizar com reconhecimento àqueles 80% que a professora mencionou, implementando suas ações e divulgando seus acertos para que não pareça que o mundo esta andando para trás, o que contraria a lei de Progresso.
Emmanuel1 referindo-se aos jovens afirma: “Ao mapa de orientação respeitável que trazem das Esferas Superiores, a transparecer-lhes do sentimento, na forma de entusiasmos e sonhos juvenis, misturam-se as deformações da realidade terrestre que neles espera a redenção do futuro”. Fica aqui claro que colocar sobre os ombros dos jovens absoluta responsabilidade pelo futuro é uma “deformação”, pois o futuro é construção de todos nós.
Dentro desta ótica há que se considerar que muitos dos comportamentos dos jovens não vem de sua indiferença, mas de excesso de expectativa que o adulto coloca sobre eles , nem sempre valorizando suas “pequenas” mas importantes realizações e como as ações calamitosas geralmente são muito mais impactantes que as pequenas ações de acerto, os 20% parecem avolumar-se e a tomar maior espaço nos nossos comentários e pensamentos que os 80%.
Oxalá pudéssemos todos, como a professora da afirmativa, ter uma visão mais otimista e esperançosa de nossos jovens, lembrando a assertiva de Emmanuel(1) “Recebamos os jovens de qualquer procedência por nossos próprios filhos, estimulando neles o amor ao trabalho e a iniciativa de educação.”
1 XAVIER, Francisco Cândido/Emmanuel. Religião dos Espíritos. Jovens - Rio de Janeiro: FEB, 1960.