A busca do Educador

 

MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES

de Ribeirão Preto, SP

 

A luta para que os educadores conheçam mais sobre os aspectos da apropriação do conhecimento pelos educandos não é nova. O próprio Kardec, antes de começar seu trabalho de Codificação da Doutrina Espírita, já denunciava que homens, só por saberem um pouco de latim, deixavam as suas aldeias e se aventuravam à educação dos jovens, sem possuírem condições para isso. Frisava que os meios para levar a efeito essa educação constituem uma ciência bem definida, e é necessário estudá-la para se ser educador, “do mesmo modo que se estuda medicina para ser médico”.¹

Longe de imaginar que esta colocação afasta do intuito de ensinar quem não tem condições, ela conclama aqueles que querem ensinar ao estudo, à busca do conhecimento na área de educação.

Um professor que não conhece aspectos do desenvolvimento infantil pode enxergar algo que seu aluno fez como um erro. Já um outro professor, estudioso deste campo, pode perceber o mesmo “erro” como parte de um processo, pode detectar ali uma evolução. Seguindo estes olhares, o primeiro vê uma criança defasada, atrasada, com dificuldades, e passa a agir como se assim fosse, muitas vezes consolidando tal imagem. Em contrapartida, o segundo vê um processo, percebe cada avanço num pequeno aspecto, enxerga uma criança capaz e em desenvolvimento, alimentando sua confiança em sua caminhada. Esta mudança de visão faz toda a diferença.

E o que possibilita esta diferença é o estudo, é a busca da compreensão dos processos de desenvolvimento, que tanto avançaram desde a época da citação de Kardec.

Esta conclamação à busca de conhecimento feita por Kardec é coerente com toda a sua vida de Codificador da Doutrina Espírita, em que primou sempre pela busca científica, pela reflexão, pela visão crítica de tudo que encontrava, pelos seus questionamentos, que muitas vezes significaram deixar para trás algumas coisas já tidas como certas para buscar outras.

Esta questão é primordial para nós, porque falar em Educação é falar de algo que o Espírito levará consigo sempre, é falar de aquisições e construções dele próprio, imortal e em plena caminhada evolutiva.

O que quer que se faça em nome da Educação – desde ensinar a escrever, a provocar o gosto pela leitura, ou possibilitar a fazer cálculos e entender processos históricos da constituição da nossa civilização – tudo é aprimoramento do Espírito. É a partir das possibilidades de pensar e refletir sobre as Leis Naturais, sobre Ação e Reação, por exemplo, que seu discernimento sobre sua própria ação vai se constituindo.

Kardec, na perg. 780 de O Livro dos Espíritos, afirma que o desenvolvimento moral é conseqüência do desenvolvimento intelectual, mostrando que o progresso intelectual pode conduzir ao progresso moral “dando a compreensão do bem e do mal, pois então o homem pode escolher. O desenvolvimento do livre arbítrio segue-se ao desenvolvimento da inteligência e aumenta a responsabilidade do homem pelos seus atos”. ²

Claro que só reproduzir teorias não significa construir conhecimentos, nem para o aluno – que pode repetir fórmulas sem entender o que diz – nem para os educadores - que podem citar nomes e experiências de teóricos sem conseguir enxergar, na sua prática, aqueles aspectos por eles citados.

Conhecer algo é apropriar-se dele, atribuir significados e trazê-lo para fazer parte de sua vida. É experimentá-lo, pensar e falar sobre ele, sentir que de alguma forma algo mudou em sua vida.

Isto serve para o educador tanto no sentido de ensinar alguém, como também no de aprender. É sua grande busca, e mesmo que não encontre todas as repostas (seria impossível!) o fato de as estar buscando já o faz crescer e aprender, cumprindo bem seu papel.

Como disse Kardec (então Rivail), num discurso pronunciado, em 1834, na escola em que era o diretor “a educação é a obra da minha vida, não faltarei à minha missão, pois penso compreendê-la. Inimigo de todo charlatanismo, não tenho o tolo orgulho de acreditar cumpri-la com perfeição, mas tenho ao menos a convicção de cumpri-la com consciência.”³

 

Bibliografia:

1 WANTUIL. Zeus e THIESEN, Francisco. Allan Kardec. FEB

2 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, cap. VIII

3 RIVAIL, Hippolyte L. D. (Allan Kardec). Textos Pedagógicos. Ed. Comenius

 

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