André Luís Bordini lança livro

 

“Ruínas da Vila Antiga”

 

PASCOAL ANTONIO BOVINO

de Ribeirão Preto, SP

 

Dia 20 de Junho último, na Livraria Atlas em Ribeirão Preto, aconteceu o lançamento do livro “Ruínas da Vila Antiga” escrito pelo nosso companheiro André Luís Bordini, O Verdade e Luz esteve lá e entrevistou André sobre diversos assuntos ligados à Doutrina Espírita.

V&L: André parabéns pelo livro. Fale-nos sobre ele e por que você não escreve mais?

André: Este é um livro de literatura composto de poemas prosados monotemáticos, cujo tema é a formação e resistência de um espaço urbano. A Vila Tibério. Trata-se de um trabalho de fôlego que está sendo lançado pela editora Atlas em parcerias institucionais e que também trará trabalhos iconográficos produzidos pela fotógrafa Tânia Registro, do Arquivo Histórico Municipal de Ribeirão Preto. Já escrevi cinco livros infantis, paradidáticos, publicados em parceria com Semíramis Paterno, grande ilustradora, por editoras com distribuição nacional. Quanto ao mais, só não escrevo por absoluta falta de tempo e por acreditar que devo ler mais e falar menos.

V&L: Você vem apresentando um seminário sobre o tema Educação para a morte, por que este tema?

André: Porque todo mundo morre! Educação significa lidar com a idéia da morte diminuindo o seu conteúdo trágico, não só da nossa própria morte, também de nossas perdas.

V&L: Qual o seu ponto de vista sobre a Doutrina Espírita?

André: É a primeira grande síntese teórica de uma tendência humana no campo do conhecimento. Na atualidade obras de pensadores importantes como o Prof. Edgar Morin, titular de Filosofia da Universidade de Paris, tentam estabelecer uma religação de saberes, através do que se chama Teoria da complexidade. Esta abordagem é apenas um engatinhar filosófico da compreensão dos fenômenos humanos, que está muito distante da abordagem espírita, mas que revela o início de uma nova era para a humanidade, sobretudo em questões éticas.

V&L: E o Movimento Espírita?

André: Um fenômeno institucional e importante para a conservação da pureza doutrinária, a coalizão de interesses comuns que dão segurança a pessoas e grupos sérios e de boa vontade, promovendo a divulgação da Doutrina Espírita e a confraternização dos espíritas em torno de uma causa superior. É natural que sendo uma experiência construída por homens, está sujeita a equívocos ou erros eventualmente advindos de nossa ignorância ou inferioridade. Mas é nele também que devemos aprender a cooperar com o que podemos, aprendendo tolerância e convivência respeitosa e fraterna com as diferenças.

V&L: Qual o aspecto do Espiritismo, científico, filosófico ou religioso, que você considera mais importante?

André: O Espiritismo hoje tem grupos de interesses bastante promissores em seus três aspectos. Há pesquisadores debruçados sobre questões científicas de muita importância, como a TVP, Transcomunicação Instrumental, os fenômenos de quase morte e tantos outros ligados ao que modernamente se convencionou chamar de Psicobiofísica. No campo religioso e assistencial também proliferam variados grupos de indiscutível eficácia e competência. Todavia no aspecto filosófico percebe-se uma certa lacuna criativa tanto no que diz respeito ao interesse das pessoas de um modo geral quanto no setor da produção bibliográfica. O nosso grande e último filósofo foi o Prof. Herculano Pires. Depois de sua desencarnação não há nada realmente significativo e metodologicamente aceitável que integre o repertório de publicações espíritas. De forma que para mim pessoalmente, que me interesso e me absorvo no estudo da Filosofia particularmente, o espaço é cada vez mais restrito. Isso é só o reflexo de uma situação global de desinteresse pela reflexão crítica. Num mundo cada vez mais escravizado pelas imposições do materialismo, as pessoas em geral se colocam entre a frieza dos fenômenos laboratoriais e a entrega mística às experiências espirituais. Entre um e outro acontece o terreno das reflexões filosóficas, que para serem válidas precisam ser livres. É cada vez menor o número de pessoas dispostas a situarem-se nesta área, porque ela exige conteúdo intelectual genérico, que demanda leitura, tempo e disposição.

V&L: Como o Espiritismo deve participar da Educação?

André: A conquista de uma educação laica pela Revolução Francesa é um direito inalienável do cidadão. Não há que se ensinar Religião na escola. Deve ser uma opção da família. O que não desobriga a escola de formar o caráter do indivíduo através de conteúdos éticos, humanos e humanísticos, ecumênicos, que transcendem as correntes religiosas e que devem nortear o comportamento humano do ser para consigo e para com os outros. Os educadores também podem explorar conceitos de suas pessoais religiões naquilo que considerarem de alguma forma contribuinte para melhorar a sua tarefa ou otimiza-la como educador. Isso não significa que deva fazer proselitismo da atividade pedagógica.

V&L: Mas, como você explica o fato de Herculano Pires sempre haver defendido uma escola espírita?

André: Nos últimos 50 anos a civilização humana assistiu a uma transformação social, econômica, política e cultural mais dramática do que nos 5.000 anos que antecederam o pós-guerra. Eventos como a globalização e a conseqüente falência dos antigos paradigmas científicos e humanísticos colocaram a Humanidade diante de desafios para os quais ainda não há receitas de vitória. A escola compete hoje com instrumentos cujos efeitos colaterais na vida humana só o futuro dirá quais são, é o caso da TV, da Internet e etc. Somente a família terá condições de atingir no seu âmbito íntimo as estruturas morais do espírito. Defender uma escola espírita abre espaço para que outras pessoas defendam escolas católicas, pentecostais, umbandistas, budistas, etc., ou seja, a escola deixaria de ser um espaço pluralista onde devemos aprender a conviver com as diferenças (religiosas, políticas, raciais, sexuais) e passaria ser um gueto.

V&L: Quais as perspectivas das Artes no Movimento Espírita?

André: A arte é a mais sublime das manifestações do espírito humano. Ela não pode estar comprometida com nada que não seja a livre expressão da criatividade e do sentimento. Não há arte espírita, como não há arte católica. Arte é Arte. Senão teríamos que admitir que o que Michelangelo fez no teto da Capela Sistina foi arte católica. Não foi. Aquilo é a expressão do gênio, é o reflexo do poder criador de um espírito maximamente comprometido com o ideal do belo. Há Arte de boa qualidade e de má qualidade. E só.

V&L: E a Morte?

André: Esse trabalho tem dado bons frutos. O seminário em Ribeirão Preto reuniu pelo menos três centenas de pessoas que gostaram e se fascinaram com a temática. Tenho levado o mesmo estudo, sem naturalmente a conotação religiosa, mas preservando o conteúdo ético e humanístico a hospitais, grupos de médicos, instituições, professores, etc. Sempre tentando promover antes de tudo, a idéia de que o hedonismo é um grande equívoco e todos só têm a ganhar com a solidariedade, o respeito, o desprendimento e a dignificação incondicional da pessoa humana.

André Luís Bordini é um jovem de 32 anos, formado em Direito, cursa o 4º ano do curso de Psicologia, é Professor no COC (ensino médio e cursinho) de Filosofia, História da Arte, Redação e Interpretação de Texto; Músico, ex-Presidente e atual Diretor de Doutrina da Sociedade Espírita Allan Kardec, de Ribeirão Preto.