Pais e a missão de educar

 

LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER

de Ribeirão Preto, SP

 

Como espíritos imperfeitos podem cumprir esta missão de educar os filhos se não têm ainda as qualificações necessárias para isso?

 

Somos todos espíritos imperfeitos, em processo de evolução, que nos levará de seres simples e ignorantes, sem conhecimento, à angelitude, ou seja, a sermos espíritos puros, sábios e amorosos. Para isso, temos inseridas em nosso ser, a perfectibilidade, isto é a possibilidade de atingirmos essa perfeição e as qualificações a serem desenvolvidas por nós, em um longo caminho, através de existências em mundos materiais.

Nesta longa caminhada, deu-nos Deus funções diversas, através da quais vamos aprendendo e desenvolvendo-nos. A mais antiga talvez, tenha sido a de sermos pais. Durante séculos ou milênios, a exercemos sem muita compreensão da sua importância. Hoje, todavia, ela nos parece, pelos conhecimentos e compreensão da vida que alcançamos, talvez a mais difícil, a de maior responsabilidade e, para a qual quase sempre nos sentimos incapacitados.

Como, sendo espíritos ainda em processo de aprendizado, com dificuldades imensas em nossos relacionamentos com Deus, com os outros e conosco, podemos executar esta missão?1

Esta pergunta nos leva a fazer algumas reflexões.

Deus julgou-nos capazes de poder realizá-la. Evidentemente que, sempre e apenas, nos é exigido aquilo que temos condições de fazer. Pais mais evoluídos têm muito mais responsabilidade nesta tarefa do que outros com menos evolução espiritual que, naturalmente, recebem como filhos, espíritos necessitados do que eles possam dar.

Estamos todos, filhos e pais, em aprendizado constante. As experiências felizes e infelizes, ocorridas nesse relacionamento, podem e devem ser consideradas como oportunidades de exercícios de aceitação das limitações e das dificuldades de cada um, de compreensão, de perdão, de boa vontade…

É verdade que os pais estão em uma posição de maior experiência nesta vida, por terem nascido antes, mas importante não quererem mostrar-se como perfeitos ou como tudo sabendo.

Em um relacionamento aberto, as imperfeições, as dificuldades dos pais, em sendo aceitas por eles, pode até ser um canal de aproximação maior entre filhos e pais. Conversar bastante, falando e ouvindo, recuar de uma decisão percebida errada, impor quando necessário, deixando bem clara a intenção, são procedimentos fraternos que aproximam, embora possa parecer o contrário.

Que os filhos possam perceber que seus pais também são pessoas em crescimento espiritual, podem errar, mas que eles percebam também que eles se esforçam por acertar.

Pensamos que somente com esta aceitação das imperfeições dos pais por eles próprios e pelo esforço em melhorar-se, terão eles mais flexibilidade, mais sinceridade, mais abertura para educar os filhos, tornando essa missão mais agradável e menos preocupante.

Acima de tudo porém, preciso é que o amor entre pais e filhos seja alimentado, desenvolvido, demonstrado todos os dias, nas atitudes e ações. Não o amor cego que obscurece a razão, mas como denominou Pestalozzi, o grande educador suíço, o “amor vidente,” o “amor esclarecido”, o “amor reflexivo”, que vê a realidade, que “sabe reconhecer a animalidade adjacente em todos os homens, e enxergar os pontos pelos quais ele pode frustrar sua realização moral, por suas tendências viciosas ou por más influências sociais. Mas é amor que sabe encontrar, sentir e fazer vibrar a corda divina da alma.”2

Este amor é aliado ao raciocínio. É o amor que ajuda a crescer.

Sejamos pais que possam refletir o amor divino, amando e auxiliando nossos filhos, apesar das nossas imperfeições , das nossas dificuldades, sabendo que se Deus nos confia espíritos para protegê-los, auxiliá-los na tarefa de desenvolvimento que lhes cabe fazer tanto quanto nós, é porque podemos realizar, em relação a esses espíritos, a missão que nos dá.

Bibliografia:

1- KARDEC, Allan - O Livro dos Espíritos - questão 582

2- INCONTRI, Dora - Pestalozzi - Educação e Ética - Ed. Scipione, págs. 94 e 95