O que fazer?

 

PASCOAL ANTONIO BOVINO

de Ribeirão Preto, SP

 

Outro dia, carro parado no sinal, abordou-me uma criança pedindo dinheiro. A reação foi negar, pois não é dando esmola nas ruas que iremos resolver problemas.

Mas, alguma coisa dentro de mim, como se fosse pequena voz, chamou-me a atenção: — Deixando de ajudar uma criança? Carente, necessitada, deve estar passando fome… talvez não tenha onde morar, talvez não tenha quem a ame ou quem a trate bem? Ponha-se no lugar dela! Procure sentir o que ela está sentindo!… Sob esses pensamentos tremi, pois não conseguira imaginar o que sente alguém, que passa por situação como esta, ter fome, estender a mão, pedir…

 Pensei: — Preciso ajudá-la, pegava a carteira, quando parece que ouvi outra voz, esta mais forte, dizendo: — Ora, como pode, incentivar a mendicância? Será que não percebe que este dinheiro, irá para a mão de algum adulto que se utiliza destes pequenos para arrecadar, sem trabalhar, sem se esforçar, sem fazer por merecer? E o que vão fazer com o dinheiro? Comprar alimento com certeza não! Lugar de criança é na escola! Este é um problema do governo. Não se intrometa, as necessidades são muitas, não vai mudar nada com a atitude do auxílio!

Voltei a pensar. É! Fortes argumentos!

Pronto, não vou dar a esmola! Mas, outra vez, a pequena voz fez-se ouvir, agora quase num sussurro: — Lembra-se o que estudou no Evangelho? A importância da caridade…, começava a estabelecer lembranças quando fui tirado do dilema pelas buzinas dos automóveis atrás, pois o farol abriu, estava verde precisava partir.

Pensando na ocorrência a consciência começou a cobrar-me por não Ter tomado nenhuma atitude, simplesmente indo embora. Poderia voltar ao local e fazer aquilo que ao final conclui como sendo o correto, auxiliar a criança, porém, mais uma vez o comodismo envolveu-me, e segui meu caminho…

Como encarar essa culpa? Como agir nesta situações? Afinal o que é Caridade?

Recordo Kardec que coloca como ponto básico do Espiritismo “Fora da Caridade não há salvação“1, depois a visão clara do “(…) fazer o bem sem ostentação“2 “(…) não saiba a vossa mão esquerda o que dê a direita“3 “(…)o óbolo da viúva“4, onde em tantos ensinamentos Jesus, Kardec e os Espíritos condenam a esmola?

E as exortações de que temos capacidades, possibilidades infinitas para ajudar o semelhante seja através da caridade moral ou material, onde, o que importa a atitude de respeito ao momento em que se detém esse meu próximo? “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que quereríamos nos fizessem eles. Toda a religião, toda moral se acham encerradas nestes dois preceitos. Se fossem observados nesse mundo, todos seriam felizes…“5 Envolto nas questões que pouco a pouco aclaram a mente, ainda questiono – nesse espírito do amor, o que faço para melhorar o mundo? Tomo atitude ou fico discutindo mentalmente, usando os “fortes argumentos” que, confortáveis, paralisam no nada fazer?

“(…) e dá a qualquer que te pedir; e, ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir (…)“6

Momentos profundos, mas conclusões tão simples…

“(…) o ato de dar é dos mais sublimes nas operações da vida (…)“7

Jesus atendeu a todas as criaturas do seu caminho, não de acordo com seus caprichos, mas segundo as necessidades…

Cismas, incertezas, dúvidas… não mais! Atitudes o amar, na vontade de ajudar, de não julgar o uso que se fará, culminando na oferta dos melhores sentimentos que tenho …“pois que saiba que o ato de dar vem de Deus e nada mais sagrado que colaborar com o Pai (…)“8

 

Bibliografia:

1,2,3,4,5 - KARDEC, Allan - O Evangelho segundo o Espiritismo – Cap. XIII

6 - JESUS – Lucas – 6:30

7,8 - XAVIER, Francisco C./Emmanuel – Caminho, verdade e vida – lição 107