O testemunho

 

JOSÉ ARGEMIRO DA SILVEIRA

de Ribeirão Preto, SP

 

“Jesus perguntou a seus discípulos: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? Disseram: alguns dizem João Batista, outros, Elias, ainda outros, Jeremias ou um dos Profetas. Disse-lhe Ele: Vós, porém, que dizeis que eu sou? Em resposta, Simão Pedro disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus, cap. 16, vs. 13 a 16)

Ante a resposta acima, Jesus afirma: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque isso não te foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai, que está nos céus”. E mais adiante diz: “Tu, és Pedro, e sobre esta rocha construirei a minha congregação”. Adverte os discípulos para não contarem isso a ninguém, e começa a mostrar-lhes que era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, do principais dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado.

Jesus afirma que a revelação correta sobre quem era Ele não havia sido feita por Pedro, homem físico (de carne e sangue), mas pelo Pai. Portanto, Pedro, como homem, não fora o autor da revelação, e sim simples instrumento da espiritualidade superior. A revelação veio do Pai, através dos Espíritos superiores, e Pedro foi o intermediário, o instrumento no plano físico, para que ela ocorresse. Na terminologia espírita, Pedro foi o medianeiro, ou médium dos bons Espíritos. E Jesus informa que construiria sua congregação, a comunidade dos seus seguidores, sobre aquela rocha, ou seja, sobre a mediunidade, essa faculdade que permite ao plano físico receber as revelações da espiritualidade.

A seguir, Jesus passa a mostrar aos discípulos que Ele deverá seguir para Jerusalém e sofrer nas mãos dos adversários, até ser morto. Mas os discípulos não queriam acreditar no que, para eles, seria um acontecimento terrível e doloroso, E Pedro afirma: “Sê benigno contigo mesmo, Senhor; não terás absolutamente tal destino”. Jesus, voltando-lhes as costas, disse a Pedro: “Para trás de mim, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço porque não tens os pensamentos de Deus, mas os de homens”. Vemos, assim, que o mesmo Pedro, que há pouco servira de intermediário para uma revelação do plano superior, e que por isso é chamado de “feliz”, por Jesus, agora atua como médium de inteligências contrárias aos planos do Mestre. Em conseqüência é chamado Satanás. Por não compreender a necessidade do testemunho, que Jesus anuncia, vendo a questão do ponto de vista material, Pedro se permite ser o intermediário de forças negativas, de Satanás, como se dizia na época.

Jesus passa a preparar os seus discípulos sobre o testemunho pelo qual deveria passar. Em Mateus, cap. 26, vers. 1 a 15, anuncia de novo sua morte, dizendo: “Sabeis que daqui a dois dias celebrar-se-á a páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado”. Era muito difícil para os discípulos compreender e aceitar os acontecimentos que Ele anunciava.

Dessas passagens do Evangelho, tiramos a lição de que todos nós estamos sujeitos a passar por determinados testemunhos; naturalmente apropriados às nossas forças. A vida nem sempre é um navegar em mar tranqüilo. Surgem os momentos de dificuldades. Enfermidades às vezes incuráveis, na própria pessoa, ou em membros da família; reveses financeiros, desemprego, falta de recursos materiais para manutenção de um padrão de vida com que se está habituado; problemas de relacionamento, incompreensões, injustiças, fortes desentendimentos, enfim são inúmeras situações, que ocorrem, e se constituem como autênticos testemunhos.

E nem sempre nos conduzimos corretamente nessas ocasiões. Às vezes falta a fé, a coragem, a compreensão. Enquanto a dor, a dificuldade, visita o vizinho, ou o estranho, sabemos explicar as causas; dar a receita sobre como proceder nessas situações. Mas quando acontece conosco, é diferente. Às vezes, perguntamos: Por que Deus fez isto comigo?... Como se Deus tivesse o propósito de nos ferir, de nos fazer sofrer.

A vida é uma escola. O aluno estuda durante o ano, aprende com os professores, com as tarefas, no dia-a-dia, e chega o momento de mostrar o que aprendeu. É o teste, a prova, cujo objetivo é aferir seu aproveitamento, com vistas a uma promoção. Assim também a vida. Vamos aprendendo no cotidiano, com a família, no trabalho, nas atividades sociais. E chega o momento do teste, ou seja, do testemunho, cuja finalidade é nossa promoção; a conquista de um patamar mais elevado. E não nos abater, como às vezes se pensa.

O aluno se prepara para a prova, ou para o vestibular, estudando, dominando as matérias. Se fizer assim, no dia da prova, esta parecerá fácil, a dificuldade será superada com relativa facilidade, Preparemos para a enfermidade com a medicina preventiva: a vacina, medidas que visam o fortalecimento do organismo,

Preparemo-nos para os momentos difíceis, para o testemunho, que certamente virá para todos, buscando aprofundar a compreensão sobre as leis divinas e, sobretudo, na prática dos ensinos de Jesus, recordados e explicados pela Doutrina Espírita. Se cuidarmos de nossa renovação interior, limpando o íntimo de mágoas e ressentimentos; se procurarmos servir ao próximo, como Jesus nos ensinou na Parábola do Samaritano generoso, por certo, quando chegar o momento do testemunho, estaremos preparados e receberemos o amparo da misericórdia divina para enfrentar a dificuldade, com vitória, como nos exemplificou o divino Mestre.