Dificuldades na ação de analisar – I
LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER
de Ribeirão Preto, SP
Analisar tudo segundo os princípios do espiritismo: Deus, Espírito imortal, fazendo sua caminhada evolutiva na Terra, ora no plano material, ora no plano espiritual, mas sempre progredindo.
Fernando Pessoa, o poeta português, narra em um dos seus livros, que um amigo lhe contara um fato acontecido entre ele e um amigo de ambos, que o deixara muito magoado. O poeta o ouviu e deu-lhe inteira razão. Mais tarde, ouviu do amigo de ambos o mesmo fato e também lhe deu inteira razão. O fato fora narrado por ambos da mesma maneira, mas cada um interpretara de forma diferente, o que levara ambos a terem razão nas suas mágoas.
Vemos nesta história o quanto é difícil analisar as coisas como elas realmente são. Ver, ouvir, sentir, analisar, interpretar são ações realizadas segundo a estrutura psíquica, a maneira de ser de cada um. Quando conto um fato a alguém, estou dando a minha interpretação, que pode não ser igual as de outros que também o viveram ou presenciaram.
Considerando que a vida nos obriga, freqüentemente, a tomar decisões, desde as mais simples, como: “— Devo tomar banho agora?”, às mais complexas e difíceis: “— Devo separar-me do meu marido?”, como saber escolher a solução correta ou a melhor possível, se nossas análises são sempre realizadas segundo a nossa estrutura psíquica, fruto do que trazemos ao nascer, dos meios familiar, ambiental e social em que crescemos e vivemos? Como tomar decisões que não tragam arrependimentos mais tarde?
Pensamos ser impossível , em nosso grau de evolução, acertarmos sempre. Errar, equivocar, omitir são ações que fazem parte do nosso cotidiano, devido à imperfeição que trazemos em nosso “eu” interior, em nosso ser espiritual, ainda mais próximo da animalidade do que da angelitude, para onde caminhamos. Este é um fato que não podemos esquecer, a fim de que nossa evolução se processe sem tantos complexos de culpa, que trazem muito sofrimento.
Podemos evoluir com mais equilíbrio, com mais segurança, com mais alegria se soubermos aceitar nossos erros e omissões, aprendendo com eles e esforçando-nos por diminuí-los.
Errar, perceber o erro, aceitá-lo, como fruto da nossa imperfeição, analisar o porquê de o cometermos, tentar evitar as causas que o provocaram é uma ação possível de ser feita por nós aqui na Terra, sem acusações, com raciocínios lógicos, procurando convencer-nos da necessidade de corrigi-los, com confiança em Deus que nos criou perfectíveis, para a felicidade e para a paz.
Se ainda não podemos deixar de errar, podemos todavia, errar com intenção de acertar. Que nossos erros sejam frutos da nossa imperfeição, mas – e isso é muito importante! - não das nossas intenções.
Desse modo, estaremos despertos para a vontade de agir o melhor possível, de acertar mais vezes, de perceber as melhores soluções, para podermos definir a que nos pareça melhor, naquele momento.
Sempre que tomamos resoluções após reflexões objetivas , claras, reais, nos sentimos muito mais seguros e, ainda que não se mostrem , mais tarde, as mais adequadas ou concorram para o surgimento de outros problemas, não haverá razões para arrependimentos, porque a solução encontrada foi a percebida como a melhor após reflexões, naquele momento.
Esta consciência do modo como se agiu impede o desequilíbrio, o arrependimento e dá condições adequadas para enfrentar-se novos desafios, mesmo os surgidos como conseqüências de falhas nossas.