Congresso Universal de Esperanto:

Uma lição de Fraternidade

 

GRACINDA M. A. FIRMINO

NEUSA PRISCOTIN MENDES

de Ribeirão Preto, SP

 

Convidamos em rimas cantadas na viola

Voando em versos aos nossos irmãos

Aos povos vizinhos e aos povos distantes

Através da voz que canta clara e sincera

E um extraordinário vibrar do coração

A eles chamamos: para cá venham, irmãos

Mostremos ao mundo que a barreira das línguas

Batida já foi pelo idioma Esperanto

Eis os versos sinceros do irmão a clamar

Cantando galope na beira do mar

 

Ao som nordestino de Tarcísio Lima, um dos mais fecundos poetas e músicos esperantistas, o trecho acima traduzido do Esperanto é a primeira estrofe da canção “Marborda galopo”, (Galope à Beira do Mar) um estilo musical regional, num explícito convite ao mundo para participar do Congresso Universal de Esperanto realizado de 3 a 10 de agosto de 2002 em Fortaleza. A canção, parte do disco “Verdastelaj brazilajoj” (Coisas da Verde Estrela brasileira), se tornou como que um hino do congresso. Quase 1500 pessoas de 58 países se inscreveram, participaram em torno de 1300, das mais diversos origens, do oriente e do ocidente, das mais diversas culturas, sistemas políticos e religiões. Em comum, um ideal: a vivência da Paz e da Fraternidade. Em comum uma única Língua de intercomunicação: O Esperanto. Nas diversas rodas dos congressistas, a explícita demonstração de uma realidade: a Babel mundial ali foi destruída, é possível a comunicação neutra e direta na aldeia global. Pode-se ouvir isso de outras pessoas, mas a constatação desta realidade na prática é experiência cuja emoção indescritível e intransferível manifestava-se na expressão de encantamento no rosto das pessoas que a viviam pela primeira vez.

O tema geral do Congresso: “Diversidade: oportunidade, não ameaça”, foi debatido e analisado no quadro do programa geral, mas cada grupo ou indivíduo trouxe o seu tema próprio, a sua própria proposta. Houve apresentação de trajes típicos, danças, música, poesia, artes em geral. Músicos amadores e profissionais, com instrumentos comuns ou exóticos, coro internacional constituído de participantes do congresso (que num momento de emoção ímpar cantou e fez todos os participantes cantarem em uníssono a versão esperanta de “Aquarela do Brasil”), artistas de teatro experientes ou jovens iniciantes demonstraram seus talentos, pintores expuseram seus quadros e suas técnicas. Atividades artísticas apresentadas à noite, durante o dia as diversas atividades: palestras de temas universitários (participaram professores universitários do Brasil, Estados Unidos, Hungria, Alemanha e Israel) cursos de Esperanto do nível básico ao de preparação e avaliação de professores, apresentação de material didático e métodos diversificados de ensino, exames de avaliação do nível básico ao avançado, lançamento de obras didáticas e de literatura, etc. Dentro do caráter neutro do Movimento Esperantista, em seu aspecto universal, as mais diversas propostas tiveram sua oportunidade de manifestação: reuniões específicas de médicos, de cegos, causas indígenas, métodos de cura naturalistas, juristas, questões de computação, professores, turismo mundial, família, ateus, comunistas, etc. Também as religiões tiveram sua liberdade de expressão, tendo marcado sua presença os católicos, os oomotanos, os budistas e os espíritas.

A reunião espírita teve a sala plenamente lotada, com participação de brasileiros e estrangeiros. Vários companheiros tomaram a palavra fazendo esclarecimentos sobre o Espiritismo. Entre os estrangeiros, honrou-nos a presença de Renato Corsetti, presidente da “Universala Esperanto Asocio”, que não esconde a sua simpatia pelo Brasil e o interesse em saber das coisas de nosso país.   Foram distribuídos gratuitamente aos presentes exemplares em Esperanto do Livro dos Espíritos, O Céu e o Inferno e O Evangelho Segundo o Espriritismo, e lançada a versão em Esperanto do livro Alvorada Nova, de Cairbar Schutel psicografado por Abel Glaser, tradução de Osvaldo Pires de Holanda, que na última gestão foi presidente da Liga Brasileira de Esperanto. Médium e tradutor estavam presentes na reunião. 

Numa das vesperais artísticas, um compositor e cantor polonês que transborda talento e simpatia, cantou a canção “Dankon, doktoro Zamenhof”

(Obrigado, Dr. Zamenhof) onde ele agradece a criação do idioma Esperanto, salientando que embora não tenha ainda resolvido o problema da comunicação em escala mundial, já conseguiu trazer tanta alegria e tanta beleza aos esperantistas. No final, ele silenciou momentaneamente, fez um gesto de aguçar os ouvidos na direção do alto, e perguntou ao público: “Vocês ouviram? Ele respondeu ‘Ne dankinde!” (De nada!). Na brincadeira, fica implícita a aceitação da possibilidade de que a vida não termina, e de que de outra dimensão os que passaram acompanham as ocorrências no nosso plano, o que para nós, espíritas, é uma certeza inabalável.

 O terreno para a semeadura dessa certeza, como se vê, já é antecipadamente favorável. Os seareiros estão convidados ao trabalho.