Auto-estima e humildade: o equilíbrio necessário
MARLENE FAGUNDES CARVALHO GONÇALVES
de Ribeirão Preto, SP
“Sois infinitamente melhores do que há cem anos; de tal maneira vos modificastes para melhor, que aceitais hoje, sem repulsa uma infinidade de idéias novas sobre a liberdade e a fraternidade, que antigamente teríeis rejeitado. Pois daqui a cem anos aceitareis também, com a mesma facilidade, aquelas que ainda não puderam entrar na vossa cabeça.” Evangelho, Cap. XI item 10.
A idéia de que estamos sempre no meio de um processo de evolução é fundamental para que deixemos nossa vaidade e comodismo de lado, na busca incessante deste crescimento. Muito ainda temos que aprender e crescer.
Olhar para trás é útil quando a visão do que já passamos e crescemos estimula o caminhar, mas olhar para trás como se já tivéssemos chegado ao topo pode acabar por retardar o nosso caminho evolutivo.
Muitas das coisas que hoje nos parecem absurdas, serão aceitas com tranqüilidade amanhã. Para isso, é necessário que estejamos abertos para a aprendizagem, que nos coloquemos numa posição para aprender, e que, como educadores, possamos trabalhar no sentido que nosso aluno ou educando, possa também perceber essa dinâmica, se reconhecendo tão capaz como qualquer outro de ensinar alguma coisa, e também se reconhecendo como quem tem algo a aprender.
A questão da auto estima aparece neste contexto, e no Evangelho, a máxima “amar ao próximo como a si mesmo” já supõe, como necessidade primeira, uma auto estima elevada, o gostar de si mesmo, sentir-se capaz de aprender, sentir que tem algo a ensinar ao outro, ter uma boa disposição para consigo mesmo.
Muitas crianças hoje têm dificuldades de aprender na escola porque, em diferentes momentos de sua vida, foram apontadas como incapazes, e passaram a se acreditar assim, mesmo diante de situações em que poderiam “tirar de letra”. Temos percebido, em trabalho com crianças com dificuldades de aprendizagem, como uma mudança na perspectiva sobre si mesma opera “milagres”! A criança passa a se sentir importante, capaz, e desloca sua energia no sentido da construção do seu conhecimento.
Por outro lado, a humildade de se reconhecer como alguém que não sabe tudo, como alguém que tem algo a aprender com qualquer um, mesmo que se julgue superior a este outro em algum aspecto (seja seu colega, seu subordinado, seu aluno, seu evangelizando ou seu filho, por exemplo) é fundamental.
Não são incompatíveis estas condutas e posturas, se pudermos nos colocar naquela linha “de tempo” do nosso desenvolvimento citada acima, extraída do Evangelho. Somos melhores que há cem anos, e estaremos melhor ainda daqui a cem anos! Muito temos a ensinar, muito temos a aprender. Todos nós. Qualquer um de nós.
Uma reflexão sobre em quais aspectos já avançamos, em quê estamos mais capazes de ajudar aos outros, em quais situações podemos possibilitar o crescimento do nosso próximo, pode ser um bom começo. É uma boa maneira de nos conhecer melhor e definir melhores condutas na relação com os Outros. Estaremos nos valorizando naquilo que temos de bom.
O oposto também é necessário. Um reflexão sobre o que temos a aprender e como isto pode ser difícil para nós, pode possibilitar a abertura de uma porta para este crescimento, para que possamos chegar mais depressa àquele eu de daqui a cem anos!
O trabalho para que aqueles à nossa volta (especialmente aqueles cuja responsabilidade de Educação – ou parte dela – está em nossas mãos) também participem dessa escalada evolutiva se faz necessário e urgente.
Como educadores, o trabalho com o outro exige – antes ou conjuntamente – um trabalho conosco mesmo, e o equilíbrio entre a auto estima elevada e a humildade deve ser encarado como objetivo a ser alcançado com nossos educandos, como também, conosco mesmo.
Bibliografia:
KARDEC, Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo
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