O Homem e a Justiça

 

LEDA DE ALMEIDA REZENDE EBNER

de Ribeirão Preto, SP

 

A justiça como “maneira pessoal de perceber, avaliar aquilo que é direito, que é justo.”

 

Justiça segundo dicionários: Caldas Aulete: “virtude moral que inspira o respeito dos direitos de outrem e que faz dar a cada um o que lhe pertence.”

Houais: “caráter, qualidade do que está em conformidade com o que é direito, com o que é justo; maneira pessoal de perceber, avaliar aquilo que é direito, que é justo.” “ princípio moral em nome do qual o direito deve ser respeitado.”

A segunda definição de Houais chama-nos a atenção, por manifestar uma idéia de que existe também uma justiça pessoal, de cada um.

O espiritismo nos ensina que a justiça, como as demais qualificações nobres do espírito, nele está inserida em potencial, em germe a ser desenvolvida por cada um de nós.

 Quanto mais o espírito desenvolve sua inteligência e sua moralidade, mais vai se afastando da visão estreita do egoísmo, que lhe faz tudo analisar em função dos seus interesses e das suas necessidades pessoais ou do grupo a que pertence, tornando-se então, mais justo ou menos injusto.

Assim as referidas definições estão corretas, não são divergentes, refletindo o que se pode compreender sobre o que o termo significa, que se constitui a meta a qual pode chegar o homem mais evoluído, um ideal ainda difícil para grande maioria da humanidade.

Parece-me que justiça como “maneira pessoal de perceber, avaliar aquilo que é direito, que é justo” é a que explica as diferentes maneiras de sentir e vivenciar esse sentimento, entre os homens, entre os espíritos, ainda em processo de evolução. Demonstra , de maneira geral, que o que se entende por justiça é reflexo da estrutura espiritual do homem, da sua visão do mundo, dos seres, da vida. Mas demonstra também a existência desse sentimento em todos os homens, embora em inúmeros graus de variações no entendimento e vivência, pois que ela se expressa “da maneira que exatamente corresponde ao desenvolvimento de cada um.”

Assim, a justiça se manifesta no indivíduo desde os primórdios da sua evolução. Sempre que se sente lesado em algo que pensa lhe pertencer, a justiça o faz agir de acordo com seus instintos e sua inteligência rudimentar. Como não sabe ainda colocar-se no lugar do outro, considera injusto tudo que o desagrade ou o prejudique, merecedor portanto de castigo, de revide, de correção.

Paulatinamente, esse sentimento vai se desenvolvendo no homem, “começando este por aplicar a si, como justo, tudo quanto ache que lhe convenha, e acabando por exprimi-lo da maneira mais elevada e pura.” Por isso, variam tanto as expressões desse sentimento entre os homens e até num mesmo indivíduo, conforme sua evolução espiritual vai se processando.

“Crê o indivíduo obrar com justiça, até quando comete as maiores atrocidades. Vem depois a reflexão, melhor conhecimento do fato, e o que lhe pareceu justo se lhe torna abominável.”

É por isso que os desatinos cometidos individualmente ou por nações são justificados por seus atores ou por seus partidários, considerando-os como justiça.

Se há os que se aproveitam das situações, se há os maus que agem com plena consciência, há os que, realmente – e talvez seja a maioria –consideram - se no direito de justiça, pela ignorância ou pelo não entendimento das leis divinas, sintetizadas no fazer aos outros somente o que se quer para si, amando o próximo como a si mesmo, colocando-se no lugar do outro, procurando compreender as causas de suas ações.

Essas reflexões podem nos levar a ser mais compreensivos e tolerantes em relação à ações dos outros, não aceitando o mal, mas tentando compreender os que agem dentro de um conceito de justiça baseada no egoísmo, não se ofendendo ou se melindrando, para que eles e outros possam também compreender-nos em nossas falhas de interpretações e de ações de justiça.

Todos nós estamos no processo de desenvolvimento desse sentimento, caminhando da visão egoística, que enxerga somente os desejos e os interesses pessoais ou de grupo, para a justiça plena, imparcial, que percebe a verdade dos fatos e dá a cada um o que lhe é de direito.

 

Bibliografia:

Grandes e Pequenos Problemas, do Guia do médium Angel Aguarod, FEB, capítulo III, itens I e II